Trump pretende lançar um empreendimento imobiliário fabuloso em Gaza, remodelando todo o local. Para isso, criou um chamado Clube da Paz, com países convidados, mas sob sua liderança pessoal. E aqueles países que quiserem permanecer definitivamente deverão pagar a modesta quantia de 1 bilhão de dólares para tanto.
Obviamente, os primeiros líderes a aceitarem a participação foram os de extrema direita, como os presidentes da Argentina e da Hungria, e do direitista paraguaio.
Esse empreendimento, que lembra a
grandiosidade da Torre de Babel, seria maravilhoso se fosse edificado em uma área não
disputada e onde não tivesse havido a prática de um horrendo genocídio
transmitido ao vivo para bilhões de pessoas.
Imagina-se construir um
empreendimento assemelhado em uma das áreas onde houve o extermínio de judeus,
ciganos e comunistas durante a segunda guerra mundial? Alguém imagina ser
viável a construção de algo assim aonde já foi um campo de concentração? Por
óbvio, não. Seria um acinte contra a memória dos assassinados pelo nazismo.
Imagine se onde houve a
destruição das Torres Gêmeas, no 11 de setembro, fosse construído um
empreendimento luxuoso e não um memorial às vítimas? Qual seria a reação da
população de Nova Iorque, nesse caso?
Pois, é. O Brasil enfrentou uma
dura disputa ideológica quando o governo militar resolveu construir às pressas
um açude na área onde houve a revolta de Canudos, um massacre de civis com
requinte de crueldade, utilizando-se a degola. A área, localizada no sertão
baiano, é de caatinga e sofre com a seca, mas estudiosos sempre disseram que,
por mais que fosse geologicamente adequada a construção na área de um enorme
reservatório, era historicamente inaceitável, pois esconderia o sítio
histórico de Canudos. No fim, houve a construção de um dos maiores açudes à
época, finalizado em 1968 sob muita crítica e também apoio, mas, como ironia,
os vestígios de Canudos sempre aparecem quando o açude sistemática e
teimosamente baixa em períodos de longa seca, a lembrar a agrura dos sertanejos de então.
Voltando à Palestina, mais
precisamente à Gaza, Trump pretende esconder a história do massacre. E as
pessoas ávidas pelo luxo e ostentação parecem esquecer que aquele local merece
respeito, seja pela longa história de tragédia, seja pelo recente genocídio, seja pelos heróicos sobreviventes que lá continuarão a morar.
Ninguém é contra levar progresso à região. Progresso é educação, saúde e moradia dignas. Construções nababescas visam, ao contrário de honrar os mortos, esconder as misérias humanas praticadas, com o agravamento do inescrupuloso acinte do luxo exagerado.
E se fosse para honrar os sobreviventes, deveria-se, primeiramente, ouvi-los, o que nunca foi feito. Ouvi-los para que?
A construção luxuosa em toda a Gaza, na verdade desconstrução da história, visa levar lucro aos inescrupulosos, impunidade aos genocidas e desconhecimento histórico às futuras gerações.
Triste é ver líderes de países se voluntariarem para a prática de atos que escondem, sob o falso manto da busca da paz, a autorização para o apagamento das marcas históricas de um dos maiores massacres já ocorridos na história da humanidade.
Nunca é demais repisar que locais históricos são preservados para que a humanidade tome consciência e não repita barbaridades.
Remodelar Gaza para o luxo e ostentação, apagando todos os vestígios do massacre, da destruição e do genocídio, é tentar remodelar a história, apagando todas as marcas de sofrimento do povo palestino.
Macron acertou ao não aceitar pisar na armadilha de Trump. Lula fará o mesmo se disser não ao convite para integrar a nada emérita lista de membros do sádico clube de Trump.
A extrema direita não visa reescrever a história, como muitos apregoam, mas apagá-la da lembrança. Será que alguém ainda é capaz de duvidar disso?
