quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Desconfiança entre Brasil e EUA sempre impediu parcerias de longo prazo

Matias Spektor/OPERA MUNDI


Em livro recém-lançado, o historiador Matias Spektor repassa a trajetória das relações entre os dois países, mostrando que sempre viveram de desconfianças recíprocas

Henry Kissinger é um dos mais importantes e controversos diplomatas americanos. Na década de 1970, durante o regime militar, inaugurou canais secretos de comunicação com Brasília, com o objetivo de fazer do Brasil um parceiro dos Estados Unidos na Guerra Fria. A tentativa fracassou, como relata o historiador Matias Spektor em seu recém-lançado "Kissinger e o Brasil" (Jorge Zahar, 2009).
Coordenador do departamento Relações Internacionais do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação) da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, Spektor mostra que este capítulo das relações entre o Brasil e os EUA foi a principal tentativa de aproximação num ambiente marcado pela desconfiança. No livro, o historiador argumenta que o Brasil quer construir seu caminho no sistema internacional, procurando impor seus próprios termos às relações com os outros países, e especialmente aos EUA. Em entrevista concedida ao Opera Mundi, ele considera que os dois países estão conhecendo o momento de maior intimidade, mas que o nível de engajamento diminuiu muito.
Qual é a percepção do Brasil em relação aos EUA, e vice-versa?
Acho que cada um dos países tem uma visão do outro que é fundamentalmente estranha para si. No caso norte-americano, a percepção básica das elites políticas é que o Brasil, como país latino-americano e como nação ocidental, somente tem a ganhar se abraçar as normas dominantes da ordem internacional liberal. Paralelamente, esta concepção reconhece que o Brasil, à medida que vai ganhando força e projeção, tem interesse em negociar com Washington em uma posição de maior força. Mas de modo geral, deveria ajudar a manter e a operar este sistema internacional liberal. Do lado brasileiro, a leitura é muito diferente: esta ordem internacional proposta pelos EUA não é nem flexível, nem aberta a novos entrantes.
Aliás, essas normas são pouco liberais na realidade: servem para projetar o poder dos EUA e do ocidente industrializado. Na leitura brasileira, parte do que ajudou o Brasil a se transformar de uma sociedade rural na década de 1940 em uma sociedade urbana 20 anos depois, de passar de uma economia mínima a ser a décima maior economia do planeta, foi justamente a resistência as estas normas e instituições. Com o nacional-desenvolvimentismo e a resistência a todas as tentativas de intrusão do ocidente na agenda local, foi criado um sistema fechado onde o Brasil pôde desenvolver a nação, buscando autonomia em relação a esta sociedade liberal.

É uma ideia que atravessou todos os governos brasileiros, inclusive a ditadura e a época neoliberal?
Não existe no Brasil contemporâneo o argumento de que o melhor futuro para o Brasil é um futuro de associação com os EUA. Ao contrário: a elite quer distancia. Não é bom estar no radar dos EUA. O corolário é que os EUA mantêm, frente a isso, uma indiferença benigna em relação ao Brasil. Não é visto como um país muito confiável do ponto de vista de uma parceria. É muito autonomista, faz jogo próprio. Além disso, não tem interdependência social grande.

Este distanciamento nunca foi questionado por tentativas de alinhamento com EUA?
Na verdade, sim. Teve duas épocas de alinhamento maior. Primeiro, entre 1942 e o fim da Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil fez o cálculo de que a aproximação com os EUA poderia resultar em benefícios. Mas isso morreu logo depois, na segunda metade da década de 1940. O Brasil esperava uma cooperação, uma transferência de tecnologia e investimentos que não chegaram. Embora os EUA tenham investido bastante no Brasil e ajudado a modernizar e industrializar a economia brasileira com técnicos e economistas, este esforço nunca chegou à altura da expectativa brasileira. Nunca houve um “Plano Marshall” para o Brasil.
A outra razão é institucional: quando acabou a guerra, Roosevelt acenou com a possibilidade de o Brasil ter um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, e Churchill recusou. Washington não insistiu, o que provocou muita irritação no Brasil.

E no pós-guerra?
O outro período de adesão aos EUA é aquele que vai de 1964, com o golpe, até 1967, ou seja, até o final do governo Castello Branco e o começo do governo Costa e Silva. Nesse curto período, o então embaixador brasileiro em Washington, Juracy Magalhães, chegou a dizer que “o que for bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Ele tinha outra frase ainda mais eloquente: “sempre que as pessoas falarem ‘Yankees, go home’, elas terão de dizer ‘Brazil, go home’”. Naquela época, os EUA apoiaram o golpe de 1964, e os militares brasileiros eram firmemente anticomunistas num contexto em que a oposição ao comunismo era os EUA. Mas o período morre em 1967.

Por que esta aproximação não emplacou, já que em 1967, o anticomunismo ainda era muito virulento?
A tentativa fracassou porque ficou evidente que a agenda de interesses produzia muitos conflitos entre ambos os países. Primeiro, surgiu o tema do acesso muito difícil ao mercado norte-americano para os produtos brasileiros. Depois, o Brasil decidiu ampliar seu mar territorial para 200 milhas náuticas, e os EUA se opuseram. Isso foi seguido pela negociação do tratado de não-proliferação nuclear. O Brasil acabou sendo um dos principais adversários ao texto que era defendido pelos EUA. Esta ideia de que “quem já tem arma nuclear pode ter; quem não tem nunca poderá” foi percebida como um escândalo aqui. O Brasil se ofendeu tanto com este tratado que decidiu não se candidatar mais para cadeiras rotativas no Conselho de Segurança. E passou 20 anos fora: voltou somente em 1988. Agora, é um dos que mais participam.
Apesar dos atritos, ambos os países conseguiram trabalhar juntos dentro do contexto da Guerra Fria?
Foi outra fonte de problemas. Os EUA, sobretudo a partir da chegada de Nixon, queriam o Brasil como aliado e, particularmente, que a ditadura brasileira ajudasse na Guerra Fria na América do Sul. Segundo eles, haveria certa divisão do trabalho entre os dois países para manter a ordem anticomunista na região. Entretanto, na hora de implementar isso, eles não concordavam sobre o que fazer. Embora o Brasil tivesse uma política anticomunista muito ativa na América do Sul, não há evidência de coordenação com os EUA.

Por que o Brasil não concordou em atuar nessa coordenação?
Primeiro, o Brasil temia muito uma presença forte dos EUA na América do Sul porque achava que ameaçava sua integridade territorial. Segundo, o governo militar não confiava na capacidade dos EUA de ter uma política a longo prazo, já que a história mostrara que a capacidade de qualquer governo norte-americano de manter preocupação com a América do Sul era muito reduzida. Foi também um momento de desencontros históricos. Lembre-se de que o golpe de Estado de Augusto Pinochet no Chile aconteceu em setembro de 1973, com o apoio dos EUA. Mas, nessa época, o Brasil decidiu fazer abertura política. Em março de 1974, quando o general Ernesto Geisel assumiu o poder no Brasil, a última coisa que queria era que Pinochet participasse de sua posse. Segundo ele, esta participação seria interpretada pelos militares dentro do Brasil como um sinal de linha-dura, quando ele queria abrir o jogo político. Então ele se vestiu de civil e tentou não receber Pinochet. Mas o general chileno veio, e não havia como dizer não.

E, nos anos 1970, qual foi o papel de Henry Kissinger?
Ele é a pessoa que representa a verdadeira tentativa de montar uma parceria entre EUA e Brasil. Teve um análogo no governo brasileiro, o ministro das relações exteriores Azeredo da Silveira, que também comprou essa ideia. A principal de Kissinger era delegar uma série de responsabilidades a grandes atores regionais. Para isso, ele abriu espaço para que países como Brasil, China, Indonésia e África do Sul ganhassem peso relativo nas relações com os EUA. O objetivo era livrar Washington do estigma de imperialismo colonialista e criar um espírito de afinidade que legitimasse a atuação global do país. Juntos, Kissinger e Azeredo da Silveira e fracassaram. Meu livro conta esta história: por que e como tentaram, e por que fracassaram. Foi uma tentativa que durou muito pouco – o tempo em que eles estavam no poder, mais ou menos de 1974 a 1977. Quando saíram, acabou.

As relações pessoais entre presidentes brasileiros e norte-americanos foram muitas vezes bastante boas. Isso não foi suficiente?
É verdade que Fernando Henrique Cardoso tinha uma excelente relação com Clinton. E, apesar das diferenças ideológicas, foi também o caso entre Lula e Bush. Aliás, acho que foi o momento de maior intimidade entre ambos os países. Mesmo assim, é muito distante. Ao longo da década de 2000, o Brasil tem votado na ONU menos vezes com os EUA do que qualquer outros dos Brics, e também menos do que a França.

O senhor acha que os EUA estão mais interessados no Brasil hoje?
Sem dúvida. O Brasil desta década é muito mais importante porque tem mais peso nos grandes temas da agenda internacional. Primeiro, no sistema financeiro internacional: se o Brasil quebrar, pode carregar consigo o sistema. É a mesma situação no comércio: apesar de o Brasil representar apenas 1,5% do comércio internacional, é um dos atores sem os quais não se consegue fechar nenhum acordo. Em temas ambientais também. E, na política, é incontornável: hoje em dia não tem mais comunismo na América Latina, mas existe uma preocupação sistemática com o Chávez, e a expectativa norte-americana é de que o Brasil possa funcionar como uma força de moderação. É uma região cheia de complicações, para a qual os EUA têm pouco ou nenhum tempo e atenção – e, nesse contexto, o que importa é o Brasil. Algo similar aconteceu na época de Kissinger, mas o Brasil era muito mais fraco.

A relação, porém, ficou muito tensa, após vários atritos: a instalação de bases militares norte-americanas na Colômbia, a volta da Quarta Frota, o golpe em Honduras...
A relação nunca foi tão íntima no sentido de preocupação e interesse dos EUA em desenvolver uma parceria agora. Mas a desconfiança norte-americana com o Brasil é permanente, e a do Brasil em relação aos EUA também. São dois países que têm um enorme potencial de fazer coisas juntos, mas fazem poucas; têm uma agenda de atritos relativamente pequenos, que não atrapalham a relação. Mas a desconfiança mútua é brutal e impede que eles avancem na parceria.

Os norte-americanos não esperavam uma reação tão clara do Brasil sobre o tema das bases militares?
De maneira nenhuma, porque, para eles, não era tão importante. Foi uma decisão tomada por pessoas de um escalão baixo, em um contexto de progressiva queda do investimento norte-americano na Colômbia – que, na concepção deles, não tem como objetivo de dominar a Amazônia, nem sequer controlar o Chávez. A visão brasileira deu proporções muito mais importantes ao evento do que ele tem.
Porque o rearranjo das bases não denota maior participação nem presença americana na região. Ao contrário, denota menos: os EUA estão saindo, começando o processo lento de reconhecer que o Plano Colômbia é um fracasso. Para os EUA, é bom que o Brasil tome conta da área. Quem mais saudou a criação da Unasul e do conselho sul-americano de defesa foram os norte-americanos, porque é do interesse deles.

E no caso da reativação da Quarta Frota da marinha dos Estados Unidos na América do Sul e Caribe?
Também. Não foi uma decisão estratégica tomada pela Casa Branca. É uma decisão do Comando Sul, em um processo que tem pouco ou nada a ver com a situação geopolítica na América do Sul. O anúncio foi interpretado aqui de maneira exagerada, da mesma maneira que os norte-americanos interpretaram a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, de uma maneira completamente errônea. O Brasil não é a favor da proliferação nuclear, nem tem interesse em impedir ou complicar a renegociação do tratado de não-proliferação que começa agora em abril. E foi o mesmo com Honduras: a percepção norte-americana foi de falta de cooperação e de entendimento brasileiro. Mas sou historiador, não gosto muito de falar dos fatos em andamento, acho arriscado demais. Prefiro ter as fontes e saber o que se falou realmente.
Durante a 5ª Cúpula das Américas, realizada em Trinidad e Tobago em abril do ano passado, o presidente Obama chegou com um discurso conciliador, que prometia grandes mudanças em relação à América Latina. Agora, muitos dos presidentes da região se dizem decepcionados.
De fato, não teve nenhuma mudança. Mas não acho que o Brasil tinha grandes esperanças. O governo sempre foi relutante em relação a Obama, desde o começo. Esta desconfiança vai contaminar as relações, que, por um lado, são cada vez mais importantes, e por outro, denotam um baixíssimo nível de engajamento. E, sempre que surgir uma fonte de tensão, seja Honduras, seja Ahmadinejad, haverá gritaria dos dois lados – a meu ver, despropositada.

O senhor acha que esta desconfiança pesa na preferência pelo fornecedor francês para a compra de 36 aviões caças, manifestada pelo governo, contra a opção norte-americana, mais barata?
É claro. O discurso do governo é privilegiar a soberania e a utilização totalmente autônoma dos equipamentos adquiridos. O Brasil quer evitar o problema vivido por vários clientes dos Estados Unidos, que foram impedidos de desenvolver seu material militar. Também quer aproveitar a compra para uma importante transferência de tecnologia, que nunca foi o ponto forte dos norte-americanos. Mas a advertência do historiador é a seguinte: olhe para o acordo nuclear com a Alemanha. Nós tínhamos um acordo com os EUA que fracassou, fizemos um com a Alemanha porque iriam transferir tecnologia. Mas, no final, eles também não cumpriram.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Começa a construção das Torres Sírias em Damasco

foto: ARABESQ

Começa a construção das Souria Towers, um conjunto de dois modernos arranha-céus que serão erguidos na região de Baramkeh em Damasco, na Síria.

O projeto, implementado pela Syria Holding, inclui escritórios, um hotel internacional cinco estrelas, apartamentos, shopping Center, restaurantes, cafés, cinema e estacionamento em uma área de 260.000m2 com 260m de altura. A conclusão está prevista para 2012.

As torres representarão a face moderna do país e se juntarão aos símbolos históricos da capital continuamente habitada mais antiga do mundo, sob custo de 15 bilhões de libras sírias (300 milhões de dólares) e estão localizadas em uma região estratégica no centro de Damasco.

Os belos edifícios foram projetados pelo escritório Frances, Architecture-Studio, que desenhou uma gigantesca praça central entre as duas torres para servir de passagem aos pedestres, unindo o “coração” da construção à cidade de Damasco mudando definitivamente a face da capital síria.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

TAIWAN CAUSA ACIRRAMENTO DAS RELAÇÕES DOS ESTADOS UNIDOS COM A CHINA

direto do EL PAIS (em espanhol)
Veja abaixo a matéria ou clique aqui para acessar a página do EL PAIS.

EE UU y China se enfrentan por Taiwán


Pekín advierte a Washington de que la venta de armas a Taipei dañará gravemente sus relaciones, muy tensas tras el ciberataque a Google en el país asiático

Las relaciones entre Estados Unidos y China, tensas tras los últimos roces en materia de derechos humanos y la polémica por el reciente ciberataque que sufrió el buscador de Internet Google en ese país, se han complicado aún más este viernes tras el anuncio del presidente Obama de su intención de aprobar la venta de un lote de armas a Taiwán por un coste de 6.400 millones de dólares (4.600 millones de euros). La reacción de Pekín, que mantiene su proclama soberanista sobre la región, no se hizo esperar y pocas horas después de que la Casa Blanca presentase al Congreso su proyecto lanzó una advertencia: si se lleva a cabo, la venta "perjudicará" el entendimiento entre ambos países y tendrá un "grave impacto negativo" en la cooperación bilateral, en palabras del viceministro de Exteriores chino, He Yafei, publicadas en la página web de su departamento.

La censura en Internet mina las relaciones China-EE UU

¿La nueva 'guerra fría'?

La propuesta de la Administración Obama, remitida por la Agencia de Cooperación de Defensa y Seguridad del Pentágono, comprende la venta de sesenta helicópteros de combate Black Hawk UH-60 y 114 misiles Patriot de Capacidad Avanzada (PAC-3), así como un sistema de mando y control conocido como Sistemas de Distribución de Información Multifuncional. Estados Unidos también suministrará 12 misiles Harpoon avanzados que pueden ser utilizados en ataques terrestres y contra embarcaciones y dos buques barreminas de la clase Osprey.
El acuerdo ratifica a Estados Unidos como primer proveedor mundial de armas a Taiwán en virtud del acta de relaciones firmada en 1979 con Taipei para contribuir a la autodefensa de la zona, una ley redactada en el momento en el que Washington reconoció diplomáticamente al país como Estado independiente.

En situaciones similares anteriores, China ha respondido siempre a la venta de armas de Estados Unidos a Taiwán con una contundente declaración diplomática y el enfriamiento de las relaciones militares. En lo que se refiere a este último punto, hay que destacar que China y Estados Unidos no han cooperado en proyectos militares desde que, en octubre de 2008, el entonces presidente George W. Bush anunciara la venta de un paquete de armas a Taiwán valorado también en 6.400 millones de dólares.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O QUE RESTA DO TEMPO, de ELIA SULEIMAN

Um dos melhores filmes que vi nos últimos anos. Um filme leve, mas que nos faz refletir sobre os erros e a vida, nossos e os ocorridos na Palestina e em Israel. Um filme em homenagem à vida, feito por palestino. Vale a pena ser visto. Sem dúvida alguma, um dos melhores filmes dos últimos tempos. Merecia um prêmio. Levar o Oscar? Nunca. Mas o melhor prêmio é o que recebemos ao vê-lo na telona. Um filme apaixonante, como a vida deveria ser! Aqueles que sofrem de perto as maiores restrições nos ensinam a encarar docemente a vida amarga. O que resta do tempo? A vida, responde sutilmente o diretor.
Cyro Saadeh
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“Uma crônica de um ausente presente” ("Chronique d'un absent présent"). Este é o subtítulo que Elia Suleiman apresenta para seu O que Resta do Tempo, que está em cartaz em São Paulo. Nascido em Nazaré, Suleiman se ampara nos diários de seu pai para começar a contar, em quatro episódios, um pouco da história da dominação israelense e da reação do povo árabe, majoritário na cidade.
Celso Marcondes

Tudo começa em 1948, pouco depois da partilha da Palestina, no momento da chegada das tropas de Israel em Nazaré, onde enfrentam e vencem a resistência árabe-palestina, da qual seu pai fazia parte. A narrativa é feita tendo como foco seu núcleo familiar e vai mostrando, ao longo dos episódios que se desenrolam até os dias de hoje, como seu povo vai convivendo com a nova realidade.

Nascido em 1960, Suleiman vira em determinado momento personagem do filme, que passa a criar recorrendo a fragmentos de suas memórias, prestando também uma bela homenagem a seus pais. Apresenta situações que expõem as contradições nos comportamentos dos habitantes da cidade, desenvolvidas ao longo dos anos. De um ângulo, foca a persistência eterna dos conflitos. De outro, os sinais de acomodação ao novo status quo.

Por exemplo: no princípio, a história mostra parte da juventude local, seu pai principalmente, resistindo com armas na mão à ocupação israelense. Já no episódio final, ambientado nos nossos dias, ele destaca a alienação de uma parte dos jovens de origem árabe, confinando-os a uma discoteca onde dançam freneticamente ao som de música eletrônica. Eles permanecem completamente alheios ao fato que estão sendo vigiados do lado de fora do prédio por um comando do exército de Israel. Porém, frustrados seus pedidos para que o volume do som seja abaixado, os também jovens integrantes da patrulha se resignam a acompanhar o ritmo da música com a cabeça, contrariando aos espectadores que imaginavam que fosse acontecer uma ação violenta de represália.

Parece aí que Suleiman tenta mostrar que a situação se acomoda, com dominantes e dominados abrindo mão do confronto. Mas em outro momento, também ambientado nos dias de hoje, o diretor deixa claro que tudo está longe de se resolver. Surge na tela uma manifestação com dezenas de jovens palestinos que é reprimida por uma tropa israelense. O curioso é que quem consegue deter momentaneamente a repressão é uma jovem mãe árabe, que tentava atravessar a rua com um carrinho de bebê. Instada a sair do local por um soldado, que a manda “ir pra casa”, ela responde: “quem não está em casa são vocês”, os soldados da ocupação.
Em outros momentos, Suleiman vai para a tragicomédia. É marcante a sequência em que um homem concentrado numa conversa ao celular, anda de um lado a outro da rua sem perceber que seus movimentos são seguidos por um enorme tanque de guerra.

Embora seja um filme político que deixa explícito o engajamento do autor, O que Resta do Tempo não tem nada de panfletário, também não é “pesado”, nem arrastado. Quando usa do humor, nos leva a abrir um sorriso contido, mas sem jamais gargalhar. Quando procura um tom mais poético, encanta com cenas belas. Preste atenção àquela em que sua mãe, já idosa e doente, sentada na varanda, parece completamente indiferente a um grandioso espocar de fogos de artifício que anunciam o Ano Novo.
E assim, intercalando cenas de confronto com cenas de acomodação, momentos cômicos com trágicos, que Suleiman narra como sua família passou pelas últimas cinco décadas, sem abandonar a terra natal. Com exceção dele, que, conta o filme, foi instado a fugir do país quando jovem para não ser preso, retornando muitos anos depois. O “ausente presente” a que se refere o subtítulo, deduz-se.

As cenas iniciais e finais do filme, quando um taxista conduzindo um passageiro - a princípio não identificado - fica perdido numa estrada sem saber para onde ir tantos são os obstáculos, parecem ter o objetivo de sintetizar a visão de Suleiman sobre a dura realidade local.
Foi em Nova York, onde viveu dos 21 aos 33 anos que o diretor iniciou sua carreira cinematográfica, sempre focando o conflito entre árabes e israelenses. Começou em 1990 dirigindo um documentário. Ganhou seu primeiro prêmio importante no Festival de Veneza, em 1996, com Crônica de um Desaparecimento, melhor filme estreante, e em 2002, faturou, com Intervenção Divina, o Prêmio do Júri do Festival de Cannes.
O que Resta do Tempo foi exibido em Cannes no ano passado e também no Festival do Rio de Janeiro e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Agora no circuito comercial, dá para mais brasileiros a oportunidade de conhecer melhor uma realidade distante da imensa maioria de nós. Onde o tempo que passa não leva à razão.

Veja o trailler clicando aqui

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Geneticistas vão checar se talibãs descendem de uma das tribos de Israel

                                                       GLOBO.COM
Combatentes talibãs defendem a vila de Hossein Kot, cerca de 20 km ao norte da capital afegã, Cabul. Ao fundo, as montanhas Hindu Kush (Foto: Stefan Smith / AFP 9-11-1997)


Origem dos pashtuns será investigada a pedido do governo israelense. Rabinato de Israel reconheceu origem judaica de tribo indiana em 2005

Da EFE
Veja abaixo trechos da matéria publicada na GLOBO.COM. A matéria, na íntegra, você pode ler no site, clicando aqui.

Dois geneticistas tentarão comprovar pela primeira vez se o principal grupo étnico que forma o movimento talibã, os pashtuns, tem origens bíblicas e se seus membros são possíveis descendentes de uma das tribos perdidas de Israel.
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Antigas crenças indicam que algumas tribos chegaram até a Índia, onde conservaram suas tradições durante centenas de anos, mas acabaram integradas à cultura local.
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Por sua vez, os pashtuns, que vivem no leste e no sul do Afeganistão e em diversas áreas do Paquistão, surgiram da região de Uttar Pradesh, no noroeste da Índia, não longe de onde supostamente foram assentados os israelitas deportados.
Entre os pashtuns existem lendas que remontam sua origem ao Egito faraônico, ao sustentar que são descendentes de egípcios que fugiram com Moisés e se integraram entre os israelitas.
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Em 2005, o Rabinato de Israel reconheceu a origem judaica de outra tribo de origem indiana, Lu-Shi, que se concentra em uma região próxima a Uttar Pradesh.
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Sem que exista nenhuma prova, o estreito parentesco entre as duas tribos poderia explicar em princípio a proximidade geográfica que seus descendentes eventualmente elegeram para o exílio, ao contrário das outras oito tribos das quais nunca mais se teve notícia.
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A Lu-Shi, uma tribo com 750 mil a 1,2 milhão de pessoas radicadas nas regiões de Mizoram e Manipur (nordeste da Índia), foi descoberta em 1979 por um rabino que se surpreendeu com seus rituais judaicos. Eles conservam uma bênção coletiva que declara: "nós, os filhos de Menashé, ainda levamos o legado".

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A IV Frota em ação: um porta-aviões chamado Haiti

matéria imperdível, exemplo de profundidade geopolítica, publicada na AGÊNCIA CARTA MAIOR


Com a crise haitiana, a militarização das relações entre os EUA e a América Latina avança mais um passo, como parte da militarização de toda política externa de Washington. A intervenção é tão escancarada que o jornal chinês "Diário do Povo" pergunta se os EUA pretendem incorporar o Haiti como mais um Estado. Em apenas uma semana o Pentágono mobilizou para a ilha um porta-aviões, 33 aviões de socorro e numerosos navios de guerra, além de 11 mil soldados. A Minustah, missão da ONU para a estabilização do Haiti, tem apenas 7 mil soldados. O problema central para a hegemonia dos EUA na região é o Brasil. O artigo é de Raul Zibechi.


A reação dos Estados Unidos de militarizar a parte haitiana da ilha logo após o devastador terremoto de 12 de janeiro deve ser considerada dentro do contexto gerado a partir da crise financeira e da chegada de Barack Obama à presidência. As tendências de fundo já estavam presentes, mas a crise acelerou-as de um modo que lhes deu maior visibilidade. Trata-se da primeira intervenção de envergadura da IV Frota, restabelecida há pouco tempo.

Com a crise haitiana, a militarização das relações entre os EUA e a América Latina avança mais um passo, como parte da militarização de toda política externa de Washington. Deste modo, a superpotência em declínio tenta retardar o processo que a converterá em uma de outras seis ou sete potências no mundo. A intervenção é tão escancarada que o jornal oficial chinês Diário do Povo (de 21 de janeiro) pergunta se os EUA pretendem incorporar o Haiti como um Estado mais da União.

O jornal chinês cita uma análise da revista Time, onde se assegura que “o Haiti se converteu no 51° estado dos EUA ou, pelo menos, seu quintal”. Com efeito, em apenas uma semana o Pentágono mobilizou para a ilha um porta-aviões, 33 aviões de socorro e numerosos navios de guerra, além de 11 mil soldados. A Minustah, missão da ONU para a estabilização do Haiti, tem apenas 7 mil soldados. Segundo a Folha de São Paulo (20 de janeiro), os EUA substituíram o Brasil de seu lugar de direção da intervenção militar na ilha, já que, em poucas semanas, terá “doze vezes mais militares que o Brasil no Haiti”, chegando a 16 mil homens.

O mesmo Diário do Povo, em um artigo sobre o “efeito estadunidense” no Caribe, assegura que a intervenção militar deste país no Haiti terá influência em sua estratégia no Caribe e na América Latina, onde mantém uma importante confrontação com Cuba e Venezuela. Essa região é, para o jornal chinês, “a porta de entrada de seu quintal”, que os EUA buscam “controlar muito de perto” para “continuar ampliando seu radio de influência em direção ao sul”.

Tudo isso não é muito novo. O importante é que se inscreve em uma escalada que iniciou com o golpe militar em Honduras e com os acordos com a Colômbia para a utilização de sete bases neste país. Se, a isso, somamos o uso das quatro bases que o presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, cedeu a Washington em outubro, e as já existentes em Aruba e Curaçao (ilhas próximas a Venezuela pertencentes a Holanda), temos um total de 13 bases rodeando o processo bolivariano. Agora, além disso, consegue posicionar um enorme porta-aviões no meio do Caribe.

Segundo Ignácio Ramonet, no Le Monde Diplomatique de janeiro, “tudo anuncia uma agressão iminente”. Esse não parece ser o cenário mais provável, ainda que se possa concluir duas coisas: os EUA optaram pelo militarismo para mitigar seu declínio e necessitam do petróleo da Colômbia, Equador e, sobretudo, da Venezuela para afiançar sua situação hegemônica ou, pelo menos, diminuir a velocidade deste declínio. No entanto, as coisas não são tão simples.

Para o jornal francês, “a chave está em Caracas”. Sim e não. Sim porque, com efeito, 15% das importações de petróleo dos EUA provém da Colômbia, Venezuela e Equador, mesmo índice da quantidade importada do Oriente Médio. Além disso, a Venezuela caminha para converter-se na maior reserva de petróleo do planeta, assim que se confirmarem as reservas do Orinoco descobertas recentemente. Segundo o Serviço Geológico dos EUA, seriam o dobro das da Arábia Saudita. Tudo isso seria suficiente para que Washington desejasse, como deseja, tirar Hugo Chávez do poder.

Ao meu modo de ver, o problema central para a hegemonia estadunidense no seu “quintal” é o Brasil. O petróleo é uma riqueza importante. Mas é preciso extraí-lo e transportá-lo, o que demanda investimentos, ou seja, estabilidade política. O Brasil já é uma potência global, é o segundo dos países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), ficando atrás em importância apenas da China. Dos dez maiores bancos do mundo, três são brasileiros (e cinco chineses). Nenhum destes dez bancos é dos EUA ou da Inglaterra. O Brasil tem a sexta reserva de urânio do mundo (com apenas 25% de seu território investigado) e estará entre as cinco maiores reservas de petróleo quando for concluída a prospecção da bacia de Santos. As multinacionais brasileiras figuram entre as maiores do mundo. A Vale do Rio Doce é a segunda mineradora e a primeira em mineração de ferro; a Petrobras é a quarta empresa petrolífera do mundo e a quinta empresa global por seu valor de mercado; a Embraer é a terceira empresa aeronáutica, atrás apenas da Boeing e da Airbus; o JBS Friboi é o primeiro frigorífico de carne bovina gado do mundo; a Braskem é a oitava petroquímica do planeta. E poderíamos seguir com a lista.
Ao contrário da China, o Brasil é autosuficiente em matéria de energia e será um grande exportador. Sua maior vulnerabilidade, a militar, está em vias de ser superada graças à associação estratégica com a França. Na década que se inicia, o Brasil fabricará aviões caça de última geração, helicópteros de combate e submarinos graças à transferência de tecnologia pela França. Até 2020, se não antes, será a quinta economia do planeta. E tudo isso ocorre debaixo do nariz dos EUA.
O Brasil já controla boa parte do Produto Interno Bruto da Bolívia, Paraguai e Uruguai, tem uma presença muito firme na Argentina, da qual é um sócio estratégico, assim como no Equador e no Peru, que facilitam a saída para o Pacífico. Aí está o osso mais duro para a IV Frota. O Pentágono desenhou para o Brasil a mesma estratégia que aplica a China: gerar conflitos em suas fronteiras para impedir a expansão de sua influência: Coréia do Norte, Afeganistão, Paquistão, além da desestabilização da província de Xinjiang, de maioria muçulmana.
Na América do Sul, um rosário de instalações militares do Comando Sul rodeia o Brasil pela região andina e o sul. A pinça se fecha com o conflito Colômbia-Venezuela e Colômbia-Equador. Agora contará com o porta-aviões haitiano, deslocando desta ilha a importante presença brasileira à frente da Minustah. É uma estratégia de ferro, friamente calculada e rapidamente executada.
O problema que as nações e os povos da região enfrentam é que as catástrofes naturais serão uma moeda de troca corrente nas próximas décadas. Isso é apenas o começo. A IV Frota será o braço militar mais experimentado e melhor preparado para intervenções “humanitárias” em situações de emergência. O Haiti não será a exceção, mas sim o primeiro capítulo de uma nova série pautada pelo posicionamento militar dos EUA em toda a região. Dito de outro modo: nós, latino-americanos, corremos sério perigo e já é hora de nos darmos conta disso.
Tradução: Katarina Peixoto

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

EL PAIS: Israel admite que disparou fósforo branco em zonas povoadas de Gaza

foto: EL PAIS
(em espanhol)


Israel admite que disparó fósforo blanco contra zonas pobladas en Gaza

El Ejército discrepa del Gobierno y niega acciones disciplinarias contra dos oficiales

JUAN MIGUEL MUÑOZ

Las gravísimas acusaciones vertidas por Naciones Unidas contra el Ejército y el Gobierno israelí por crímenes de guerra tras la campaña militar de Gaza hace 12 meses pasan factura a la diplomacia israelí, a relevantes líderes políticos que eluden viajar a varios países europeos, a la deteriorada imagen del país. Y ahora también suscitan fricciones, nada usuales, entre el Ejecutivo y el Ejército. Mientras la prensa local asegura que el Gobierno ha admitido que dos mandos castrenses han sido sometidos a una "acción disciplinaria" por el empleo inadecuado de proyectiles de fósforo blanco en zonas pobladas por civiles, el Estado Mayor lo niega rotundamente.

Es la primera vez que el Gobierno hebreo admite, aunque lo califique de error, el uso inadecuado de esa munición. El viernes, cumplido el plazo fijado en el informe elaborado por el juez surafricano Richard Goldstonez para que Israel presentara su propia investigación, el secretario general de la ONU, Ban Ki Moon, abordará el expediente. Se cierne sobre Israel el riesgo de que el expediente termine en el Consejo de Seguridad y, eventualmente, aunque es muy improbable, ante el Tribunal Internacional de Justicia.

En las alegaciones presentadas ante Naciones Unidas la semana pasada para justificar el ataque militar contra el territorio palestino y rebatir el demoledor informe de Goldstone, el Gobierno de Benjamín Netanyahu reconoce que Eyal Eisenberg, general de Brigada y comandante de la División de Gaza, y el coronel Ilan Malka, jefe de la Birgada Givati, han sido sometidos a una "acción disciplinaria". Se ignoran las eventuales sanciones, en el caso de que finalmente se impongan, sobre todo porque el Estado Mayor ha negado que los citados uniformados hayan sido siquiera interrogados.

El fósforo blanco se empleó profusamente en zonas habitadas porque en Gaza la densidad de población es de las más altas del mundo. La destrucción de la infraestructura económica de la franja durante la ofensiva fue descomunal -cientos de fábricas, escuelas, hospitales y unas 20.000 viviendas fueron arrasadas o dañadas severamente- y, entre los casi 1.400 muertos, la mayoría eran civiles ajenos a la contienda. Según el informe israelí, los proyectiles de fósforo se lanzaron contra unas instalaciones de la Agencia de las Naciones Unidas para los Refugiados en el que se guarecían cientos de civiles palestinos en el barrio de Tel el Hawa, en la ciudad de Gaza.

En abril pasado, el vicejefe del Estado Mayor, Dan Harel, aseguraba que las investigaciones internas no desvelaban ningún uso inadecuado del fósforo blanco y que en todo caso se había lanzado en áreas abiertas y contra enemigos armados, algo permitido por la legislación internacional. Las fotografías de las agencias desmentían a Harel. La lluvia de esos proyectiles sobre colegios y zonas urbanas ha sido acreditada fehacientemente. Ahora es el propio Gobierno quien admite que al menos en algunos lances de la guerra dos oficiales -Eisenberg y Malka- permitieron que se disparara esa munición "excediendo su autoridad de una manera que amenazó las vidas de otros". Muchos civiles, entre ellos decenas de niños, sufrieron quemaduras horrendas.

Es improbable que el informe entregado a la ONU pueda satisfacer las exigencias de la comisión encabezada por el juez surafricano. Requiere Goldstone una investigación independiente sobre los presuntos crímenes de guerra perpetrados en los 22 días de campaña. Aunque el Ejército ha abierto 36 investigaciones criminales, a día de hoy sólo un soldado israelí ha sido castigado por robar una tarjeta de crédito a un palestino y retirar fondos de su cuenta. "Israel está siendo evasivo otra vez", rezaba el domingo el editorial del diario Haaretz.

El Gobierno trata de demostrar en su alegato remitido a Naciones Unidas que la Abogacía General del Ejército es un organismo independiente, ajeno a la jerarquía militar. Pero pensar que las investigaciones llevadas a cabo por las propias Fuerzas Armadas puedan satisfacer las exigencias de imparcialidad -requeridas en el informe de la comisión Goldstone- resulta inadmisible para cualquier jurista. No se puede ser juez y parte. De ahí que las voces que abogan por la formación de una comisión de Estado independiente en Israel, encabezada por un juez del Tribunal Supremo, sean cada vez más numerosas. En el seno del Gobierno no se llega tan lejos, y se promueve un comité de investigación del que no se conocen ni sus competencias ni su formación.

La comisión de Estado -como las que se constituyeron para indagar la masacre de Sabra y Chatila, en 1982, o la de guerra de Yom Kipur, en 1973- es, a juicio de numerosos analistas políticos, el único modo de diluir las nefastas consecuencias políticas y diplomáticas que para Israel acarrea el informe Goldstone, en el que se amenaza con trasladar las acusaciones al Consejo de Seguridad y, en su caso, al Tribunal Internacional de Justicia. Pero la iniciativa en favor de esa comisión tropieza con un escollo que se antoja insalvable. Los jefes del Ejército, institución sagrada, y el ministro de Defensa, Ehud Barak, rechazan tajantemente esa vía. El Tsahal es intocable.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

SÃO PAULO, UMA ATLÂNTIDA

foto: http://library.thinkquest.org
São Paulo é uma ilha que está submergindo. É uma verdadeira ilha da fantasia, com restaurantes deslumbrantes, importantes desfiles de moda, boates badaladíssimas, pessoas com enormes fortunas pessoais, alta tecnologia por todos os cantos e recantos, que sobrevive à incessante chuva. Assim é São Paulo. Mas estamos submergindo diante de tanta água que não para de cair do céu e de subir e avançar nas ruas e residências. Face a isso vem uma pergunta inevitável: o que será de nós daqui alguns milênios? Seremos lembrados? Quem fará com que se lembrem de nós? Os políticos?

Abramos um parêneses. Dizem que houve um local muito parecido com S. Paulo. Era Atlântida, que já chegou a ser mencionada por Platão em suas obras. E para quem não sabe, Platão foi um dos maiores filósofos gregos de todos os tempos e também da humanidade. Alguns dizem que ele se referiu ao lendário continente retratando-o como uma utopia humana. Bem, na verdade Atlântida nada mais é que uma lenda de uma ilha enorme, quase um continente, que foi destruída por um terremoto e submergiu nos mares. Teria desaparecido há mais de 11 mil anos. Falam que a ilha era repleta de beleza e povoada por uma civilização rica e repleta de tecnologia avançada.

Bem, São Paulo está virando ilha e submergindo; nossa terra é repleta de beleza, povoada por uma população bem rica e há tecnologia de ponta por todos os cantos e recantos. Só não há Platão. Ah, mas há televisões de sobra. Muitos apresentadores vão fazer matérias e isso poderá ser visto e ouvido daqui milhares de anos. Alguns podem se perguntar: para que sermos eternizados por um filósofo que apenas usava a escrita, ainda que fosse Platão? Se vamos ser afogados, melhor ter algo que sobreviva ao encharcamento. Mas, pera aí. São Paulo, consumismo tem limite. Se for para São Paulo entrar na história e ser lembrada daqui alguns anos´por meio de alguém, você prefere que seja  através de um repórter, uma antena ou um intelectual? Ah, se Platão existisse hoje, talvez tomássemos vergonha na cara e resolvessemos o problema das enchentes. Como não há, sobram falatórios sob muita inundação e submerssão. Em breve S. Paulo será uma Atlântida, e não teremos um Platão para contar história, mas alguns apresentadores sensacionalistas para retratar o pior da nossa sociedade.

São Paulo, a possível Atlântida que não virará lenda, mas uma mera reportagem! Que triste lembrança...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Os EUA e a "pacificação presidencial" na América Latina

(tradução do texto postado ontem)

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O presidente Barack Obama distanciou os EUA de quase toda América Latina e Europa ao aceitar o golpe militar que derrubou a democracia hondurenha em junho passado. O apoio ao processo eleitoral garantiu para os EUA o uso da base aérea de Palmerola, em território hondurenho, cujo valor para o exército estadunidense aumenta na medida em que está sendo expulso da maior parte da América Latina. Obama abriu a brecha ao apoiar um golpe militar, repetindo uma prática dos EUAbem conhecida na América Latina. O artigo é de Noam Chomsky.

Noam Chomsky

Barack Obama é o quarto presidente estadunidense a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, unindo-se a outros dentro de uma longa tradição de pacificação que desde sempre serviu aos interesses dos EUA. Os quatro presidentes deixaram sua marca em nossa “pequena região” ("nosso quintal"), que "nunca incomodou ninguém", como caracterizou o secretário de Guerra, Henry L. Stimson, em 1945. Dada a postura do governo de Obama diante das eleições em Honduras, em novembro último, vale a pena examinar esse histórico.

Theodore Roosevelt

Em seu segundo mandato como presidente, Theodore Roosevelt disse que a expansão de povos de sangue branco ou europeu durante os quatro últimos séculos viu-se ameaçada por benefícios permanentes aos povos que já existiam nas terras onde ocorreu essa expansão (apesar do que possam pensar os africanos nativos, americanos, filipinos e outros supostos beneficiados).

Portanto, era inevitável e, em grande medida, desejável para a humanidade em geral que o povo estadunidense terminasse por ser maioria sobre os mexicanos ao conquistar a metade do México, além do que estava fora de qualquer debate esperar que os (texanos) se submetessem à supremacia de uma raça inferior. Utilizar a diplomacia dos navios de artilharia para roubar o Panamá da Colômbia e construir um canal também foi um presente para a humanidade.

Woodrow Wilson

Woodrow Wilson é o mais honrado dos presidentes premiados com o Nobel e, possivelmente, o pior para a América Latina. Sua invasão do Haiti, em 1915, matou milhares de pessoas, praticamente reinstaurou a escravidão e deixou grande parte do país em ruínas.

Para demonstrar seu amor à democracia, Wilson ordenou a seus mariners que desintegrassem o Parlamento haitiano a ponta de pistola em represália pela não aprovação de uma legislação progressista que permitiria às corporações estadunidenses comprar o país caribenho. O problema foi resolvido quando os haitianos adotaram uma Constituição ditada pelos Estados Unidos e redigida sob as armas dos mariners. Tratava-se de um esforço que resultaria benéfico para o Haiti, assegurou o Departamento de Estado a seus cativos.

Wilson também invadiu a República Dominicana para garantir seu bem-estar. Esta nação e o Haiti ficaram sob o mando de violentos guardas civis. Décadas de tortura, violência e miséria em ambos países foram o legado do idealismo wilsoniano, que se converteu em um princípio da política externa dos EUA.

Jimmy Carter

Para o presidente Jimmy Carter, os direitos humanos eram a alma de nossa política externa. Robert Pastor, assessor de segurança nacional para temas da América Latina, explicou que havia importantes distinções entre direitos e política: lamentavelmente a administração teve que respaldar o regime do ditador nicaragüense Anastásio Somoza, e quando isso se tornou impossível, manteve-se no país uma Guarda Nacional treinada nos EUA, mesmo depois de terem ocorrido massacres contra a população com uma brutalidade que as nações reservam para seus inimigos, segundo assinalou o mesmo funcionário, e onde morreram cerca de 40 mil pessoas.

Para Pastor, a razão era elementar: os EUA não queriam controlar a Nicarágua nem nenhum outro país da região, mas tampouco queria que os acontecimentos saíssem do seu controle. Queria que os nicaragüenses atuassem de forma independente, exceto quando essa independência afetasse os interesses dos Estados Unidos.

Barack Obama

O presidente Barack Obama distanciou os EUA de quase toda América Latina e Europa ao aceitar o golpe militar que derrubou a democracia hondurenha em junho passado. A quartelada refletiu abismais e crescentes divisões políticas e socioeconômicas, segundo o New York Times. Para a reduzida classe social alta, o presidente hondurenho Manuel Zelaya converteu-se em uma ameaça para o que esta classe chama de democracia, que, na verdade, é o governo das forças empresariais e políticas mais fortes do país.

Selaya adotou medidas tão perigosas como o incremento do salário mínimo em um país onde 60% da população vive na pobreza. Tinha que ir embora. Praticamente sozinho, os EUA reconheceram as eleições de novembro (nas quais saiu vitorioso Pepe Lobo), realizadas sob um governo militar e que foram uma “grande celebração da democracia”, segundo o embaixador de Obama em Honduras, Hugo Llorens. O apoio ao processo eleitoral garantiu para os EUA o uso da base aérea de Palmerola, em território hondurenho, cujo valor para o exército estadunidense aumenta na medida em que está sendo expulso da maior parte da América Latina.

Depois das eleições, Lewis Anselem, representante de Obama na Organização de Estados Americanos (OEA), aconselhou aos atrasados latinoamericanos que aceitassem o golpe militar e seguissem os EUA no mundo real e não no mundo do realismo mágico.

Obama abriu a brecha ao apoiar um golpe militar. O governo estadunidense financia o Instituto Internacional Republicano (IRI, na sigla em inglês) e o Instituto Nacional Democrático (NDI) que, supostamente, promovem a democracia. O IRI apóia regularmente golpes militares para derrubar governos eleitos, como ocorreu na Veenzuela, em 2002, e no Haiti, em 2004. O NDI tem se contido. Em Honduras, pela primeira vez, esse instituto concordou em observar as eleições realizadas sob um governo militar de facto, ao contrário da OEA e da ONU, que seguiram guiando-se pelo mundo do realismo mágico.

Devido à estreita relação entre o Pentágono e o exército de Honduras e à enorme influência econômica estadunidense no país centroamericano, teria sido muito simples para Obama unir-se aos esforços latinoamericanos e europeus para defender a democracia em Honduras. Mas Barack Obama optou pela política tradicional.

Em sua história das relações hemisféricas, o acadêmico britânico Gordon Connell-Smith escreve: "Enquanto fala, da boca para fora, em defesa de uma democracia representativa para a América Latina, os Estados Unidos têm importantes interesses que vão justamente na direção contrária e que exigem um modelo de democracia meramente formal, especialmente com eleições que, com muita freqüência, resultam numa farsa".

Uma democracia funcional pode responder às preocupações do povo, enquanto os EUA estão mais preocupados em construir as condições mais favoráveis para seus investimentos privados no exterior? Requer-se uma grande dose do que às vezes se chama de ignorância intencional para não ver esses fatos. Uma cegueira assim deve ser zelosamente guardada se é que se deseja que a violência de Estado siga seu curso e cumpra sua função. Sempre em favor da humanidade, é claro, como nos lembrou Obama mais uma vez ao receber o Prêmio Nobel.

Tradução: Katarina Peixoto
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