sábado, 28 de fevereiro de 2009

A esperança de José Saramago

da redação da Revista CartaCapital
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"Que fazer com os italianos?”, pergunta José Saramago.
“Reconheço que a pergunta poderá soar de maneira algo ofensiva a um ouvido delicado. Que é isto? Um simples particular a interpelar um povo inteiro, a pedir-lhe contas pelo uso de um voto que, para gáudio de uma maioria de direita cada vez mais insolente, acabou por fazer de Berlusconi amo e senhor absoluto de Itália e da consciência de milhões de italianos? Ainda que, em verdade, quero dizê-lo já, o mais ofendido seja eu. Sim, precisamente eu. Ofendido no meu amor pela Itália, pela cultura italiana, pela história italiana, ofendido, inclusive, na minha pertinaz esperança de que o pesadelo venha a ter um fim e de que a Itália possa retomar o exaltador espírito verdiano, que foi, durante um tempo, a sua melhor definição.”
O Prêmio Nobel reage à notícia da demissão de Walter Veltroni, líder do maior partido de oposição da Itália, o PD, nascido dos escombros do PCI largamente remanejado depois da queda do Muro de Berlim, e da aliança com os centristas da Margherita de Francesco Rutelli. A saída de Veltroni resulta de uma série de fracassos, o derradeiro no fim de semana passado, com a derrota do candidato do PD à presidência da região Sardenha. E também de sérias desavenças internas com outros expoentes da esquerda. A direita avança, e Silvio Berlusconi não perde a oportunidade para acentuar sua condição incontestável de clown globalizado. No último dia da campanha eleitoral na Sardenha, falou dos “desaparecidos” argentinos atirados ao mar pela ditadura: “Levavam-nos de avião, lá pelas tantas diziam: dia bonito, saiam ao ar livre para brincar”.
Responde prontamente a vice-presidente das Madres de la Plaza de Mayo, Mercedes Meronio: “Mais uma vez, aparece o rosto verdadeiro de Berlusconi (...) trata-se de uma pessoa sem sentimento, não conhece o amor e tampouco a felicidade”.
Quanto à felicidade, a senhora Meronio talvez se iluda.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

ISRAEL VIVE UMA METAMORFOSE

O Estado de Israel surgiu como uma promessa socialista e depois desvirtuou o nacionalismo, tão defendido desde o início, para a extrema direita que vemos dominando o atual cenário político.
O Partido Trabalhista, de esquerda, mas não necessariamente menos beligerante e ligado aos sionistas fundadores do Estado, viu diminuir a sua participação no jogo partidário e a direita como um todo tem crescido sem cessar. Ex-agentes do serviço israelense e do exército, homens e mulheres, dominam a vida política, inclusive ocupando cargos de primeiro-ministro, como recentemente vimos uma ex-agente do Mossad.
Em Israel vieram os judeus e descendentes dos mais diversos países da europa, incluindo a Rússia, e hoje tornou-se um grande pedaço do ocidente encravado no médio Oriente. O Estado surgido em 1948 instituiu valores ocidentais naquela região, alterando hábitos alimentares e culturais, além dos modelos arquitetônicos e do modo de vida como um todo.
Hoje, Israel fabrica armas, inclusive atômicas, compra armamentos de grandes potências, provoca guerras e sacrifica vidas da população civil libanesa e palestina. É o país mais bem armado da região e aproveita essa supremacia para expandir-se lentamente, tomando terras dos palestinos, libaneses e sírios. Expande os assentamentos de colonos na Cisjordânia e no território sírio ocupado.
Israel modificou suas essências, a realidade, e hoje torna-se um Estado com potencial imperialista e fascista. Mas esse posicionamento tem amplo apoio da população, muito embora existam importantes vozes discordantes, normalmente de intelectuais.
Recentemente, a TV Aljazeera noticiou que o apresentador Lior Shlain, do Canal 10 de Israel, zombou de Cristo e da virgindade de Maria, o que teria gerado irritação nas comunidades palestina, muçulmana, cristã-ortodoxa e católica. O programa sarcástico disse, entre outras coisas, as seguintes pérolas. Primeiro, que a Virgem Maria era “totalmente falsa... ela teria engravidado aos 15 anos de idade de um de seus colegas em um banco da escola”. Depois, acrescentou que “Jesus era muito gordo para conseguir andar na água”.
Um dos partidos de direita pretende retirar direitos políticos dos árabes-israelenses, num claro sinal de discriminação e preconceito, fomentando ainda mais o ódio e o separatismo dos povos irmãos.
O preconceito atinge até valores importantes para a própria comunidade judáica. Não muito tempo atrás, jovens de descendência judáico-russa, pixaram a suástica nazista em pleno Estado-Judeu! Maior contrasenso que este é impossível.
A verdade é que o caminho que vem sendo adotado pela política internacional israelense e pela própria população traz uma série de sérias preocupações.
O que acontecerá com esse Estado quando o seu maior provedor (Estados Unidos) não financiar mais armamentos nem capital?
O que acontecerá com esse Estado quando a população árabe-israelense tornar-se maioria em Israel?
O que acontecerá com esse Estado quando a extrema direita expandir e solidificar não apenas o imperialismo, a ampliação do território israelense ou a beligerância, mas os atos racistas e xenófobos que estão adquirindo força, trazendo à lembrança os nefastos tempos sofridos com o nazismo?
O que acontecerá com esse Estado quando a ONU fizer valer suas declarações, convenções e resoluções?
O que acontecerá com esse Estado quando a inteligência vencer o medo e a humanidade sobrepuser-se às armas?
Mas, o que será dos valores éticos e filosóficos da humanidade se a realidade que vemos hoje naquela região não for modificada?
São perguntas sem resposta? Talvez sim. O mais fácil seria os governantes israelenses serem menos hipócritas e aceitarem definitivamente a criação do país chamado Palestina. Para isso deveriam aceitar os governos eleitos pelos povos vizinhos, retirar exército e colonos e respeitar as fronteiras internacionalmente reconhecidas.
Mas ainda creio na profecia de Edward Said, intelectual palestino radicado nos Estados Unidos e já falecido, de que uma nação única para palestinos e israelenses fosse a maior lição de humanidade para o mundo, sem preconceito, sem matança interna e com interação religiosa, cultural, gastronômica, econômica... Nada que o tempo, a preocupação internacional, a participação efetiva da ONU, a disposição de aceitar o outro e uma boa Constituição não resolvam. As utopias servem justamente para isso, para nos fazer crer na humanidade existente nos... humanos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O repórter está morto

por Claudio Julio Tognolli



O jornalismo investigativo está morto. Sobrevive, tão somente, em salas deaula. Apenas porque lá repórteres engravatados vão dar palestras. Diantedo silêncio maravilhado dos alunos, mostram o que é deter o júbilo de serum ungido pelos deuses pagãos do jornalismo. Mas esta farsa luminosa, lacunarmenteencenada, logo se dissipa como água na água: o aluno logo aprende que o jornalismoinvestigativo é um defunto tresnoitado. O que sobrou para os jornalistasinvestigativos, agora, é copiar grampos degravados por peritos policiaissonolentos. Ou copiar boletins de ocorrência. Tanto faz: o que era para serponto de partida (os dados oficiais), virou ponto de chegada.
O curativo arrepio de delícia, que percorre a espinha do repórter, sempreque pega um furo, passou a ter um preço. E este tem deixado diretores deredação numa rarefação de causar rodopios. Levantamento feito pelo jornalistaMárcio Chaer, do site Consultor Jurídico, mostra que há no Brasil quase 2,8mil jornalistas processados. Um recorde mundial. Os dados são de dois anosatrás. Tudo porque, mesmo defendendo publicamente a tão aclamada “transparência”,diretores de jornais sucumbiram, ano passado, à assoprada dada pela entidadepatronal que congrega os donos de jornal. A saber: não revelem novamenteos dados dos processos sofridos por jornalistas. Isso custa caro ao preçodas ações das empresas.
Sabe-se que esse número de processos contra jornalistas dobrou. Ninguém émais processado pela Lei de Imprensa. Desde a Constituição de 1988, advogadospreferem processar jornalistas pelo artigo quinto, inciso décimo, da CartaMagna, que prevê a inviolabilidade de imagem. Ações cíveis contra empresasde jornalismo viraram um bom investimento. Estima-se que, no Brasil, pelomenos RS$ 70 milhões estejam sendo postulados na Justiça contra jornalistas.
O número total de ordens judiciais de interceptação telefônica no país em2008 ultrapassou 400 mil, segundo levantamento feito pela Agência Nacionalde Telecomunicações (Anatel) junto às operadoras, entre 1º de janeiro e 5de dezembro do ano passado, da CPI e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).Segundo o relatório da Anatel, foram determinados 398.024 grampos em celularese 11.905 em telefones fixos, totalizando 409.929 pedidos de interceptações.
Numa sondagem feita com 8 repórteres investigativos, referiram-me que, detudo o que publicaram ano passado, em seus jornais e revistas, mais de 90%“veio pronto”. Ou seja: essa produção industrial de grampos acabou escoandonas páginas da mídia. Agora entendemos porque o jornalismo investigativodá sinais alusivos de agonia, e uma inervação indissolúvel toma conta dosadvogados contratados para escangalhar o couro de repórteres.
A filosofia que preside um inquérito, naturalmente, é aquela chamada, emlógica, de princípio do terceiro excluído, ou, em latim, “tertio non datur”.Ou lidamos com culpados, ou com inocentes. Ou com o bem, ou com o mal. Jamaisse pensaria em absurdidades logicamente possíveis, como, digamos “bondadeque mata”. O ministério público, titular da ação penal, está aí para isso.
A defesa dos acusados que se vire: a princípio todos são culpados. Esse mecanismoveio funcionando bem, com seus excessos, é claro, até que vieram os grampos.
E até que vieram as “bolachas” (CD’s) com todas as gravações e grampos eo escambal a quatro. Esse escarmento, levado aos repórteres, criou uma enxurradade “jornalistas investigativos”, cujo único papel tem sido reproduzir o quese recebeu da polícia ou das procuradorias.
Roda nas redações do Brasil, a boca pequena, um documento de onze páginas,sobre a chamada Operação Satiagraha, que levou Daniel Dantas à cadeia. Nelealguns jornalistas são citados como partícipes do movimento que teria levadoà privatização da Satiagraha, daí o afastamento do delegado Protógenes Queiróz.O documento tem servido como “mea culpa” para todo o repórter que o lê. Aconcorrência para dar o furo tem feito o repórter surfar os limites do impossível.
Tem nos aproximado do velho alpendre filosófico de Nietszche quando alertouque, toda vez que nos aproximamos por demais do monstro que queremos combater,corremos o risco de nos tornarmos iguais a ele. A indústria dos grampos,e a cobrança no esquema da concorrência pelo furo, deixou o repórter pairandono intermédio de ambos: hoje é juiz. Amanhã será carrasco. O populacho queconsome shows aplaude a transmutação. Os advogados de redações coçam os rubisdos anéis.

Cláudio Júlio Tognolli concluiu o doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo em 2002. É professor concursado da ECA e membro das UniFIAMFAAM. Publicou artigos em periódicos especializados. Possui capítulos de livros e 5 livros publicados. Representa o Brasil no International Consortium of Investigative Journalism (www.icij.org). É diretor-fundador da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (www.abraji.org.br) e repórter especial da Revista Consultor Jurídico (www.conjur.com.br). Escreve mensalmente para as revistas Joyce Pascowitch, Joyce Poder, Rolling Stone e Sax, entre outras. É co-roteirista do "Projeto Máfia", pela produtora 02, que leva às telas um de seus livros, sob a direção de Mauro Lima (Meu nome não é Johhny). Na ECA-USP é editor-responsável da Revista Babel. Recebeu os prêmios Jabuti (1997), Esso (2003) e do Depto. de Estado dos EUA (1996).

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

"DITABRANDA" '"DITAFOLHA" "DITAFOLHAGEM" "DITAMIRAGEM"


Não é novidade para ninguém que a mídia brasileira está decadente. Ao invés de investir no jornalismo, optou por tratar o seu produto como mero marketing. E exemplo clássico disso é o Jornal Folha de S. Paulo. Assine o jornal para ter uma idéia. Você ganhará algum produto do valor da assinatura. Mas isso apenas na primeira assinatura. Nas renovações você perderá esse "carinho" da Folha Publicidade e Cia.


Também não é novidade para ninguém que esse jornal tido por alguns como "vanguarda da democracia" (cade esses alguns, agora?) forneceu veículos e informes aos membros da ditadura, enquanto o seu concorrente mais próximo, o jornal "O Estado de São Paulo", declaradamente mais conservador, mas menos infiel ao seu leitor, sofria de perto a censura e se via obrigado a publicar receitas de bolos.


Não é novidade que a ditadura chamada de militar teve amplo apoio da mídia nacional, dentre eles a "Folha de S. Paulo" e o próprio "O Estado de S. Paulo". A oposição era feita apenas pelo jornal Última Hora e pela Tv Excelsior. Ambos foram perseguidas pela ditadura e a concessão da Tv Excelsior, que fundou o padrão de qualidade copiado pela Tv Globo, foi rompida.


Também não é novidade que durante a ditadura chamada de militar houve prisões ilegais, censura, perseguições políticas, cassações, espionagem clandestina, tortura e assassinatos.


Também não é novidade para ninguém que um regime democrático, com um presidente eleito, João Goulart, foi deposto às escuras, com o apoio estadunidense, inclusive.


Também não é novidade alguma que as empresas multinacionais foram beneficiadas com o golpe contra a democracia, prejudicando alguns grupos empresariais brasileiros e o modelo de sindicalização. Daí surgiria um novo modelo de sindicalismo, representado pelo Lula, hoje presidente do Brasil.


Não é novidade que o golpe contra a democracia amordaçou os intelectuais, enfraqueceu o pool cultural vivido pelo Brasil naquele momento, diluiu a qualidade jornalística, perseguiu grandes nomes da inteligência brasileira, confundiu valores nacionais e nacionalismo com o apoio à ditadura, e beneficiou alguns grupos midiáticos que cresceram exponencialmente, como o império Globo de Comunicações.


Quantos brasileiros perderam a vida? Quantos brasileiros foram obrigados a largar o magistério e o serviço público? Quantos brasileiros não foram expulsos das Forças Armadas? Quantos brasileiros não choraram no exterior o silêncio popular? Quanta injustiça não foi cometida?


Para a Folha de S. Paulo, tudo isso é algo brando, tranquilo, suave. Talvez na ótica daqueles que se beneficiaram, assim seja, mas na ótica dos valores nacionais, na ótica da política nacional, na ótica da justiça social, na ótica dos direitos humanos, a ditadura brasileira, ainda que antes do Plano Condor, não foi suave em nenhum aspecto. Basta lembrar do silêncio generalizado, das prisões e das torturas.


É lamentável que um órgão de imprensa que tem a maior tiragem diária impressa do país cometa não um engano, mas crimes lesapátria e contra a história nacional, ao criar o absurdo termo ditabranda. Utilizando esse mesmo tipo de linguagem, talvez pudessemos chamar o jornal Folha de mera folhagem, mero arbusto, que apenas esconde o campo de visão sem mostrar a realidade. Não é um mirante, longe disso, mas mera miragem que agora se esvai.


Feito o desabafo, recomendo a leitura do texto abaixo, recentemente publicado no Observatório da Imprensa.

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"DITABRANDA" NA FOLHA

Direita, volver!


Por Luiz Antonio Magalhães em 23/2/2009

Há males que vêm para o bem, lembra o dito popular. No último dia 17 de fevereiro, em Editorial contra o presidente venezuelano Hugo Chávez, a Folha de S. Paulo qualificou, assim como quem não quer nada, en passant, de "ditabranda" o regime militar que vigorou no Brasil entre 1964 a 1985.
Para que não reste nenhuma dúvida sobre o que foi escrito na Folha, vai a seguir a transcrição do trecho que vem provocando tanta polêmica:
"Mas, se as chamadas ‘ditabrandas’ -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso."
Para começo de conversa, causa espécie que o jornal escreva "as chamadas ‘ditabrandas’" quando não há notícia de que alguém tivesse, antes da Folha, a idéia de jerico de qualificar o regime militar de tal forma. Este observador fez uma busca no Google e constatou que a pesquisa retorna apenas as referências à polêmica iniciada pela Folha. Ninguém antes qualificou a ditadura brasileira de "ditabranda".
Aliás, a busca no Google já vem carregada de ironia, pois antes da primeira indicação de link, o buscador pergunta: "você quis dizer dieta branda?" Como bem sabem os iniciados, toda vez que alguém erra a digitação da palavra, o Google cuida de corrigir ou sugerir o nome correto. Ditabranda, portanto, é coisa lá da rua Barão de Limeira mesmo. Dieta branda teria sido realmente mais feliz.
Mas até aqui, é justo dizer, a direção da Folha e seus editorialistas têm todo o direito de achar que os militares pegaram leve. É uma questão de gosto e escolha, provavelmente o assinante do Estadão jamais leria tamanho despautério, ainda que o jornal se posicione de maneira muito mais conservadora do que a Folha em várias questões. A razão para isto é simples: O Estado de S. Paulo sofreu bem mais com a censura e sabe o quão duro foi o dito governo. De toda maneira, o diário da família Frias não precisa se envergonhar em qualificar de ditabranda o regime em questão, da mesma maneira que a turma da Abril não só pensa que pegaram leve como anda saudosa de um novo período semelhante, especialmente para tirar essa gente barbuda e mal educada que insiste em permanecer altamente popular em meio à maior crise do capitalismo.
Nota da Redação: jornal muda de rumo
Não foi no editorial, portanto, que a Folha perdeu a mão. Nos dias que se seguiram à publicação daquela jóia do pensamento que emerge no nono andar do belo prédio do jornal, os leitores naturalmente reclamaram, enviando cartas indignadas à redação. O Painel do Leitor publicou algumas nos dias 18 e 19, mas foi no dia 20 de fevereiro que o jornal mostrou a sua verdadeira cara. Depois de uma sequência de cartas de leitores, apareceram duas de "figurões", seguidas por uma inacreditável resposta da Redação, como segue abaixo.
"Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!" MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)
"O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana." FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)
Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa.
É preciso ler com calma a tal Nota da Redação. Que a Folha respeite a opinião dos leitores é o mínimo que se pode esperar. Imagine o grau de arrogância, que já não é baixo, se não respeitasse... Mas o que realmente choca neste caso é a Redação classificar de "obviamente cínica e mentirosa" a indignação de Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, como se para que os dois se indignassem com a barbeiragem do jornal fosse necessária a indignação prévia com Fidel Castro.
Este observador aprendeu com seu avô, pioneiro do ensino de Filosofia na Universidade de São Paulo, que o fiofó nada tem a ver com as calças. Ou, como diria outro filósofo, este da esfera futebolística, "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". Comparato e Benevides não têm "autorização" da Folha para se indignarem, precisam antes bradar que não gostam de Fidel e seus amigos e, principalmente, que Cuba é uma DI-TA-DU-RA. Ou será que se os eméritos professores também qualificarem o regime cubano de "ditabranda" a Folha já deixaria de considerar "cínica e mentirosa" a indignação dos dois?
O pior de tudo realmente não foi o editorial, bem lamentável, mas a Nota da Redação de 20/2. Pior, sim, porque todo foca que passou uma semana em qualquer redação do país sabe que uma nota dessas não é publicada sem a anuência da direção do jornal. Por mais que o editor do Painel do Leitor vista a camisa do jornal, ele não tem autonomia para chamar Fábio Konder Comparato de cínico e Maria Victoria Benevides de mentirosa. A nota veio de cima, o que só reforça a ideia de que também o editorial foi cuidadosamente pensado para que o jornal emitisse o juízo de valor que tem, hoje, sobre a ditadura brasileira.

Não será surpresa se a Folha roubar Reinaldo Azevedo ou Diogo Mainardi da Veja. A esta altura, é bem provável, inclusive, que ambos já tenham sido sondados. E, ironia das ironias, não demora muito para o leitorado paulista de esquerda migrar para o Estadão. Há mesmo males que vem para o bem: nível de azia na leitura será bem menor...
PS em 22/02: O ombudsman da Folha, em sua coluna semana publicada no domingo (22/02), parece concordar com este observador. Evidentemente, Carlos Eduardo Lins e Silva foi mais ameno na forma, mas não deixou de assinalar o despropósito da Nota da Redação do jornal, conforme se pode ver abaixo:
Duas opiniões que mobilizam muitos leitores
Já me referi aqui ao escopo do trabalho do ombudsman, que não abarca as opiniões publicadas pelo jornal, em editoriais, colunas ou artigos.
O ombudsman se atém aos aspectos técnicos, factuais, comprováveis, verificáveis. Opinião é como religião, time de futebol, convicção ideológica: cada um tem a sua e nenhuma é melhor que outra.
Mas, talvez porque, como ensinava Spencer, a opinião é determinada em última análise pelos sentimentos, não pelo intelecto, ela mobiliza manifestação de muitos leitores.
Esta semana, duas motivaram pelo menos 115 mensagens. Sem entrar no seu mérito opinativo, vou tratar de ambas.
Um post de blog do Folha Online trazia no título as palavras vadias e vagabundas acima de foto em que apareciam Marta Suplicy e Dilma Rousseff. Pareceu-me uma insinuação de mau gosto e insultuosa.

Um editorial com referência ao regime militar brasileiro provocou cartas publicadas no "Painel do Leitor". Resposta da Redação a duas delas na sexta foge do padrão de cordialidade que julgo essencial o jornal manter com seus leitores.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Diretor da inteligência: A crise econômica mundial ameaça a segurança dos EUA

O novo diretor da Inteligência Central Americana, Dennis Blair, alertou que a atual crise econômica global e a possível instabilidade resultante dela, representam uma ameaça maior do que o terrorismo.

Segundo o jornal ‘The New York Times’ o alerta reflete a preocupação das agências de inteligência com os efeitos adversos da crise econômica no mundo e com os danos à reputação dos Estados Unidos a longo prazo.

O jornal citou Blair dizendo diante do congresso na quinta-feira que a atual crise financeira internacional, originada nos Estados Unidos, “aumentou as incertezas sobre a capacidade dos Americanos para administrarem a economia global”. A declaração foi considerada surpreendente especialmente por ter sido proferida no contexto de uma avaliação das ameaças pelo congresso, normalmente dominada por questões como o terrorismo e as armas nucleares.

Blair referiu-se especificamente ao declínio econômico como a “principal preocupação de segurança a curto prazo”.

"quanto maior for o tempo para reanimar a economia, maiores serão os danos nos interesses estratégicos dos Estados Unidos”. Acrescentou Blair.

O diretor da Inteligência depôs pela primeira vez diante do Comitê de Inteligência do Congresso Americano, avaliando os desafios da segurança nacional dos Estados Unidos.

com agências internacionais

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

POSTAL: DEPOIS DE 83 ANOS

A página da BBC Brasil na internet divulgou na sexta-feira que, na Bélgica, um cartão postal foi entregue 83 anos depois de ter sido enviado. Quem recebeu a correspondência enviada pelo avô em 1926 foi a neta Rosa, em Opbrake.
Isso é tanto poético quanto absurdo. Daria um bom roteiro, entrelaçando histórias em tempos tão diversos. Em uma época em que as correspondências são instantâneas, soa estranho e quase divino uma história como essa, onde se brinca com o tempo, tornando duradouras as lembranças e os sentimentos daqueles que aqui não mais estão.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O imigrante árabe e o carnaval do Rio de Janeiro

O texto abaixo foi publicado originalmente no ICARABE
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Por João Baptista M. Vargens
(professor da Uerj - Universidade Estadual do Rio de Janeiro)


Quando os primeiros imigrantes árabes aportaram no Rio de Janeiro, na segunda metade do século XIX, compartilharam do “glamour” parisiense nos trópicos. Passeavam pela Ouvidor e viam a gola godet afagando suavemente o pescoço das moçoilas, que trajavam, invariavelmente, saias com plissé. Os lábios plenos eram delineados por bâton e as maçãs do rosto acetinadas com rouge.


Quando chegava fevereiro, participavam nossos sírios e libaneses da feitura dos limões-de-cheiro, utilizados no Entrudo, e, desse modo, faturavam alguns tostões. Da mesma forma que acontecia na Europa, os folguedos que antecediam à Quaresma no Brasil não tinham uma só moldura. Havia dois tipos de Entrudo: o familiar e o popular. Aquele, comemorado no interior das residências; este, uma verdadeira balbúrdia de rua, batalha de águas, perfumes e de outros líquidos menos aromáticos.

Os estrangeiros, imigrantes de modo geral, eram os principais alvos das brincadeiras e viam-se enfarinhados e molhados, sendo vítimas de chacota da população local.“O tal brinquedo de EntrudoQue lhe chamam Carnaval,É uma ideia infernal;Confundem-se hierarquiasÉ tudo igual em três dias.

O Mágico, 29/02/1862Com a reforma urbanística empreendida pelo prefeito Pereira Passos, o Rio ganha uma nova fisionomia na virada do século XX e as festividades momescas populares deslocam-se para a Praça XI, a Cidade Nova. Afinal, a Rio Branco é palco dos corsos, coisa de grã-finos.

Na segunda década do século passado, surgem as escolas de samba, termo cunhado por Ismael Silva, bamba do Estácio, bairro onde havia a Escola Normal, de formação de professores.
Na Praça XI, viviam muitos imigrantes, entre eles árabes, que, devido à sua principal atividade econômica, o comércio, estabeleceram sólidos vínculos com a população local. Era na Praça XI que também estava fincado o zungu da Tia Ciata, famosa festeira baiana, reverenciada por Mário de Andrade em Macunaíma.

Pelo visto, a cumplicidade do imigrante árabe com o carnaval carioca varou os séculos XIX e XX.

A partir dos Anos Dourados até a década de 80, os bailes oficiais de carnaval do Rio de Janeiro eram realizados nos clubes Monte Líbano e Sírio-Libanês. Lá, pontificavam os exuberantes concursos de fantasias, acompanhados pela TV por todo Brasil, nos quais Clóvis Bornai e Evandro de Castro Lima eram hors-concours. Na mesma época, reinava Abrahão Haddad, eterno Rei Momo do Rio, monarca absoluto, majestade de todo o ano, pois promovia serestas encantadoras numa idílica rua da Tijuca.

E a aliança carnaval-imigrante árabe não para por aí. Sabem os leitores que o compositor que mais venceu concursos de samba-enredo foi Hélio Turco da Mangueira? E, falando em Mangueira, não podemos deixar de falar na legendária Portela, detentora de 21 títulos. A campeoníssima de Oswaldo Cruz tinha nos bons tempos um ritmo singular e quem nos contou foi o iluminado Paulinho da Viola, um dos ícones da Música Popular Brasileira:

“Nunca mais ouvi aquilo na vida. O som, tudo diferente. Fechado, quase maçônico. Na batucada havia cavaquinho, palmas, vários pandeirinhos. O pai do Jamil fazia os pandeirinhos, os famosos adufes sem platinelas”. (in A Velha-Guarda da Portela, João Baptista M. Vargens e Carlos Monte).


Um outro Jamil, o Cheiroso, presidiu, por muito tempo, a Império Serrano, vizinha da Portela, e, sob seu comando, os imperianos conquistaram inúmeros carnavais.


Por fim, a Beija-Flor de Nilópolis, localizada na Baixada Fluminense, destaca-se nas últimas décadas e sua diretoria é formada por membros da colônia libanesa.

E as marchinhas carnavalescas? Nássara, David Nasser... Quanta gente...

Vamos parar por aqui. Está chegando a hora... Vou entrar nesse bloco...Allah- lá – ô, ô, ô,ô, ô, ô, ô, Mas que calor, ô, ô, ô , ô, ô, ôAtravessamos o deserto do SaaraO sol estava quente e queimou a nossa cara
Allah – lá – ô, ô, ô, ô, ô, ô,ôViemos do EgitoE muitas vezesNós tivemos de rezarAllah, Allah, Allah, meu bom Allah
Mande água pra IaiáMande água pra IoiôAllah, meu bom Allah.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

ATLÂNTIDA: SINAIS DA CIVILIZAÇÃO?

Página 12
Um engenheiro britânico pensava ter descoberto a mítica civilização perdida de Atlântida, até que o Google explicou que os traços vistos na foto ao lado são causados por barcos que recolhem dados para a elaboração de mapa do fundo do oceano.
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O jornal "The Sun" publicou ontem que um engenheiro aeronáutico britânico, Bernie Bamford, ao utilizar o buscador "Google Ocean" (parte do "Google Earth"), teria descoberto o que parecia ser a Ilha de Atlantis, mencionada pela primeira vez pelo filósofo grego Platão (427-347 AC).

No artigo publicado no jornal, há uma fotografia em que se explica que o que se vê na imagem, uma espécie de planos quadriculados, não são formações naturais, mas fruto da ação humana.

O "The Sun" afirma que, a julgar pela imagem do "Google Ocean", a suposta civilização perdida há quase 12 mil anos, segundo relatos de Platão, encontrar-se-ia no Oceano Atlântico, a uns 965 quilômetros a oeste das Ilhas Canarias, a uma profundidade de uns cinco mil e 600 metros.
(tradução de Cyro Saadeh)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

GAZEIFICAMO-NOS (com Z, sim!)

Sim, esse gazeificamo-nos é com z, não se assuste! É uma referência à Faixa de Gaza, tão sofrida, tão arruinada, tão desumanizada...

Aos poucos, gazeificamo-nos e rumamos para cima, para o Céu, para o Paraíso, para um mundo dos sonhos, talvez não com tanta leveza...


Sem perceber, o povo de Gaza está desaparecendo e morrendo, de morte "matada" e de morte figurada. Quando o físico não se esvai, a alma sofredora encolhe as esperanças e faz cegar as possibilidades de felicidade, matando os espíritos... A população de Gaza também morre figuradamente.

Mas quando naquela pequena faixa acontece um massacre e uma injustiça, gazeificamo-nos, pois nos tornamos mais próximos de Gaza e da indignação absoluta.

Gazeificamo-nos quando pensamos em Justiça, Paz, Harmonia, Vida, Dignidade, Amor e Felicidade.

Se Gaza está nos nossos espíritos e nos nossos corações, gazeificamo-nos... E, como muitos dos tipos de gases, espalhamo-nos sem sermos percebidos... A lei da física torna-se uma grande esperança para a humanidade.

(essa brincadeira com as palavras não visou denegrir a imagem de Gaza e tampouco o seu significado social tão visível e tão importante)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Situação de refugiados na Itália preocupa

A Itália já foi um exemplo de democracia para a Europa, mas hoje reveste-se de um conservadorismo ímpar com as medidas extremadas adotadas pelo primeiro-ministro para lá de Magda, Belisconi. Ops, desculpe: Berlusconi, .
Enquanto o governo italiano realiza um bate-boca diplomático com os políticos brasileiros, graças à concessão de refúgio a um militante da extrema esquerda que foi condenado com base em meros indícios, a situação dos refugiados na Itália é preocupante. Veja abaixo a matéria publicada na Rádio ONU.

RÁDIO ONU
Samantha Barthelemy, da Rádio ONU em Nova York

Cerca de 2 mil refugiados estão superlotando um centro com capacidade para apenas 850 pessoas na ilha de Lampedusa, no sul do país.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Acnur, informou, nesta sexta-feira, que está preocupado com a situação dos cerca de 2 mil refugiados na ilha de Lampedusa, no sul da Itália.
Segundo a agência, as pessoas, em sua maioria somalis e eritreus, estão abrigados num centro com capacidade para apenas 850 pessoas.

Condições Precárias
De acordo com o Acnur, o centro de Lampedusa era destinado ao alojamento temporário de refugiados, que seguiam para outros locais no sul da Itália enquanto esperavam a decisão sobre seus pedidos.
Mas, após uma mudança na política do governo italiano, no início deste ano, todo refugiado deve permanecer em Lampedusa até que receba uma resposta.
O porta-voz do Acnur, William Spindler, falou à Rádio ONU, de Genebra, sobre as condições no centro de refugiados.
“Neste momento há quase 2 mil pessoas em condições muito precárias. Entre elas crianças e mulheres que estão sem os serviços básicos, que não têm ao menos uma cama para dormir. São pessoas que, em muitos casos, sofreram experiências terríveis em seus países de origem, mas também durante a viagem para chegar a Lampedusa,” disse.
Segundo o Acnur, a superlotação não está só piorando a situação humanitária dos refugiados, mas também dificultando o trabalho da agência.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

"Exterminem todos os brutos": Gaza 2009

Noam Chomsky
Artigo publicado originalmente no site de Noam Chomsky, em 19 de janeiro de 2009, um dia antes da posse do presidente dos EUA, Barack Obama. (EXTRAÍDO DA AG. CARTA MAIOR - copyleft)
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O poder dos homens do Hamas permanece intacto, e a maior parte dos que sofreram em Gaza é de civis: um resultado positivo, segundo uma doutrina muito bem difundida, a do terrorismo de Estado. Israel calculou que seria vantajoso parecer que “estava ficando louco”, causando terror largamente desproporcional à população. O recado era claro: deixem de apoiar o Hamas. Enquanto isso, observamos calmamente um evento raro na história, que o velho sociólogo israelense, Baruch Kimmerling, chamou de “politicídio”, o assassinato de uma nação.
No sábado, 27 de dezembro, teve início o mais recente ataque de EUA-Israel contra palestinos desamparados. O ataque foi meticulosamente planejado, por mais de seis meses, de acordo com a imprensa israelense. O plano tinha dois componentes: militar e propaganda. Baseou-se nas lições da invasão israelense do Líbano em 2006, que foi considerada pobremente planejada e mal divulgada. Podemos, então, estar razoavelmente confiantes em que a maior parte do que vem sendo feito e dito foi intencional e programado. Isso certamente inclui o momento do ataque: pouco antes do meio-dia, quando as crianças estavam retornando da escola e multidões circulavam nas ruas densamente povoadas da Cidade de Gaza. Levou apenas poucos minutos para matar mais de 225 pessoas e ferir 700, um auspicioso começo de massacre em massa de civis indefesos, presos numa minúscula jaula sem saída. Na sua retrospectiva “Inventário das Conquistas da Guerra de Gaza”, o correspondente do New York Times, Ethan Bronner, citou um dos mais significativos desses ganhos. Israel calculou que seria vantajoso parecer que “estava ficando louco”, causando terror largamente desproporcional, uma doutrina cujos traços remontam aos anos 50. “Os palestinos em Gaza entenderam a mensagem no primeiro dia”, escreveu Bronner, “quando os aviões de guerra de Israel atacaram numerosos alvos simultaneamente no meio da manhã de um sábado. Uns 200 morreram instantaneamente, surpreendendo o Hamas e na verdade toda Gaza”. A tática do “estava ficando louco” aparentemente tinha sido bem sucedida, concluiu Bronner: há “certas indicações de que a população de Gaza sentiu tanta dor com essa guerra que buscará pôr um freio no Hamas”, o governo eleito. Essa é outra velha doutrina do terrorismo de estado. Eu não lembro, incidentalmente, da retrospectiva do Times “Inventário das Conquistas da Guerra da Chechênia”, ainda que nesta os ganhos tenham sido grandiosos. O meticuloso plano também incluía o término do assalto, cuidadosamente marcado para logo antes da posse, a fim de minimizar a (remota) ameaça de que Obama pudesse dizer algumas palavras críticas a esses viciosos crimes apoiados pelos EUA. Duas semanas depois do Sabbath que inaugurou o assalto, com Gaza já espatifada e com o número de mortos chegando a 1000, a agência das Nações Unidas UNRWA, da qual muitos habitantes de Gaza dependem para sobreviver, anunciou que o exército israelense proibiu o carregamento de ajuda para Gaza, alegando que as estradas estavam fechadas devido ao Sabbath. Para honrar o dia sagrado, aos palestinos no limite de sobrevivência deveriam ser negados comida e medicamentos, enquanto centenas podem ser massacrados pelos aviões de bombardeio norte-americanos e por helicópteros. Crueldade e cinismo em notas de rodapéA rigorosa observância do Sabbath nesse duplo sentido atraiu pouco noticiário. O que faz sentido. Nos anais da criminalidade norteamericana-israelense, tamanha crueldade e tamanho cinismo merecem pouco mais que uma nota de rodapé. São também familiares. Para citar um paralelo relevante, em Junho de 1982 a invasão israelense apoiada pelos EUA no Líbano começou com um bombardeio do campo de refugiados palestinos de Sabra e Shatila, que depois iriam se tornar famosos como lugares de massacres terríveis supervisionados pelas IDF (Forças de “Defesa” Israelenses, o exército de Israel). O bombardeio atingiu o hospital local – o hospital de Gaza – e matou mais de 200 pessoas, de acordo com o relato de uma testemunha ocular, um acadêmico norte-americano especialista em Oriente Médio. O massacre foi o ato inicial de uma invasão que chacinou entre 15 e 20 mil pessoas e destruiu a maior parte do sul do Líbano e Beirute, e se realizou com o crucial apoio militar e diplomático dos EUA. Isso inclui vetos nas resoluções do Conselho de Segurança visando a deter a agressão criminosa que estava sendo cometida, e mal escondida, para defender Israel da ameaça de um acordo político pacífico, contrário a muitas fabricações convenientes relativas ao sofrimento dos israelenses sob intensos foguetes, uma fantasia de apologistas. Tudo isso é normal e bastante discutido abertamente pelos altos oficiais israelenses. Trinta anos atrás o alto comandante do exército israelense, Mordechai Gur observou que desde 1948 “temos lutado contra uma população que vive em vilas e cidades”. Como o mais proeminente analista militar, Zeev Schiff resumiu em suas observações, “o exército israelense sempre atacou populações civis, proposital e conscientemente...o exército”, disse ele, “nunca distinguiu alvos civis [de militares]...mas propositalmente atacou alvos civis”. As razões foram apresentadas pelo distinto homem de estado Abba Eban: “havia um projeto racional, em última análise alcançado, de que as populações afetadas iriam fazer pressão para que as hostilidades cessassem”. O efeito, como Eban entendeu bem, seria permitir a Israel implementar, sem distúrbios, seus programas de expansão ilegal e de repressão áspera. Eban estava comentando uma análise do primeiro ministro Begin, do governo trabalhista, sobre os ataques desferidos contra civis, apresentando um quadro, disse Eban, “em que Israel brutalmente inflinge morte e aflição em populações civis, num estado de ânimo reminiscente de regimes que nem o senhor Begin nem eu ousaríamos mencionar os nomes”. Eban não contestava os fatos analisados por Begin, mas o criticava por tê-los exposto publicamente. Não concernia a Eban, nem a seus admiradores, que sua defesa do sólido terror de estado também seja reminiscente de regimes que ele não ousaria mencionar o nome. A tentativa de "educar" o HamasAs justificações de Eban do terror de estado são tomadas como convincentes por autoridades respeitadas. Enquanto o recente ataque israelo-estadunidense ainda fazia barulho, o colunista do Times, Thomas Friedman, explicava que a tática atual de Israel, como aquela adotada durante a invasão do Líbano em 2006, estava baseada num princípio louvável: “tentar educar” o Hamas, ao inflingir perdas pesadas aos seus militantes e sofrimentos terríveis à população de Gaza”. Isso se compreende em termos pragmáticos, como foi o caso no Líbano, em que “a única dissuasão de longo prazo foi expor os civis – as famílias e empregados dos militantes – a calamidades, para que eles não apóiem o Hizbollah no futuro”. E, por uma lógica similar, o esforço de Bin Laden para “educar” os americanos no 11 de Setembro foi altamente louvável, bem como os ataques nazistas a Lídice e Oradour, a destruição que Putin causou em Grozny, e outras notáveis tentativas de “educação”. Israel tem envidado esforços para tornar clara sua dedicação a esses princípios reguladores. O correspondente do New York Times, Stephen Erlanger, reporta que os grupos israelenses de direitos humanos estão “perturbados com os ataques israelenses em prédios que acreditam devam ser classificados como civis, como o parlamento, as delegacias de polícia e o palácio presidencial” - e, podemos acrescentar, vilas, casas, campos de refugiados densamente povoados, sistemas de água e esgoto, hospitais, escolas e universidades, mesquitas, instalações de ajuda humanitária das Nações Unidas, ambulâncias e na verdade qualquer coisa que possa aliviar a dor de vítimas sem valor. Um oficial sênior da inteligência do IDF explicou que o exército “atacou ambos os aspectos do Hamas – sua ala de resistência ou militar e seu dawa, ou ala social”, esta última, um eufemismo para a sociedade civil. “Ele argumentou que o Hamas era um todo”, continua Erlanger, “e, numa guerra, seus instrumentos de controle político e social eram alvos tão legítimos com o são seus abrigos dos foguetes”. Nem Erlanger nem seus editores acrescentaram qualquer comentário quanto à defesa aberta e à prática de terrorismo em massa alvejando civis, embora correspondentes e colunistas afirmem sua tolerância e mesmo a defesa de crimes de guerra, como já se notou. Mas, para manter a regra, Erlanger não deixa de enfatizar que os foguetes do Hamas são “uma óbvia violação do princípio de discriminação e se encaixa na clássica definição de terrorismo”. Assim como outros especialistas em Oriente Médio familiarizados com a região, Fawwaz Gerges observa que “o que os oficiais israelenses e seus aliados americanos não avaliam é que o Hamas não é apenas uma milícia armada, mas um movimento social com uma grande base popular profundamente consolidada na sociedade”. Portanto, quando eles levam ao cabo seus planos de destruir a “ala social” do Hamas, estão visando a destruir a sociedade palestina. Talvez Gerges esteja sendo gentil demais. É muitíssimo improvável que os oficiais israelenses e norte-americanos – ou a mídia e outros colunistas – não tenham uma avaliação desses fatos. Antes, eles implicitamente adotam a perspectiva tradicional daqueles que monopolizam os meios de violência: com um soco norte-americano esmagamos toda oposição, e se o saldo civil de nossos ataques brutais é pesado, também é bom: pode ser que os sobreviventes venham a ser convenientemente educados. "São vileiros com armas"Os oficiais israelenses entendem claramente que estão destruindo a sociedade civil palestina. Ethan Bronner cita um coronel israelense que diz que ele e seus homens não estão muito “impressionados com os combatentes do Hamas”. “São vileiros com armas”, declarou um atirador num blindado de transporte da tropa. Eles parecem com essas vítimas da criminosa operação “mão de ferro” do IDF no sul ocupado do Líbano, em 1985, dirigida por Shimon Peres, um dos maiores líderes terroristas da era da “Guerra contra o Terror” de Reagan. Durante essas operações, os comandantes israelenses e os analistas de estratégia explicaram que as vítimas eram “vileiros terroristas” difíceis de erradicar, porque “esses terroristas operam com o apoio da maior parte da população local.” Um comandante israelense reclamou que “o terrorista... tem muitos olhos aqui, porque ele vive aqui”, enquanto o correspondente militar do Jerusalém Post descreveu os problemas que as forças israelenses enfrentaram, combatendo “mercenários terroristas”, “fanáticos suficientemente dedicados a suas causas a ponto de correrem o risco de serem mortos enquanto lutam contra as IDF”, que deve “manter a ordem e a segurança” no sul ocupado do Líbano, a despeito 'do preço' que os seus habitantes terão de pagar”. O problema tem sido familiar aos dos norte-americanos no Vietnã do Sul, aos dos russos no Afeganistão, aos dos alemães na Europa ocupada, e a outros agressores que vêem a si como implementando a doutrina Gur-Eban-Friedman. Gerges acredita que o terror israelo-norte-americano vai fracassar. O Hamas, ele escreve, “não pode ser exterminado sem que 500 mil palestinos sejam massacrados. Se Israel for bem sucedido matando os líderes mais antigos do Hamas, uma nova geração, mais radical que essa, rapidamente os substituirá. Hamas é um fato da vida. Ele não vai desaparecer, e não vai levantar a bandeira branca, não importa quantas perdas sofra”. Talvez, mas sempre há uma tendência a subestimar a eficácia da violência. É particularmente esquisito que uma crença como essa se sustente nos EUA. Por que eles estão aqui?O Hamas é frequentemente descrito como “apoiado pelo Irã, que quer a destruição de Israel”. Será difícil encontrar algo como “democraticamente eleito Hamas, que há muito vem demandando um acordo pelos dois estados com base no consenso internacional” - bloqueado por trinta anos pelos EUA e Israel, que rejeitam o direito dos palestinos à autodeterminação. Tudo isso é verdade, mas não é útil para a agenda [Party Line], portanto, é dispensável. Esses detalhes mencionados acima, ainda que menores, nos ensinam algo a respeito de nós mesmos e de nossos clientes. Entre outras coisas. Para mencionar uma delas, quando o último assalto israelo-norte-americano em Gaza começou, um pequeno barco, o Dignity, estava a caminho de Gaza, vindo do Chipre. Os médicos e ativistas dos direitos humanos que estavam a bordo pretendiam furar o bloqueio criminoso de Israel e levar suprimentos médicos à população aprisionada. A Marinha Israelense interceptou o barco em águas internacionais, bateu e quase o afundou, até o Dignity se dirigisse a duras penas para o Líbano. Israel publicou suas mentiras de rotina, refutada por jornalistas e passageiros a bordo, inclusive o correspondente da CNN, Karl Penhaul, e a representante norte-americana, ex-candidata a presidente pelo Partido Verde, Cynthia McKinney. Esse é um crime sério – muito pior, por exemplo, do que sequestrar barcos na costa da Somália. Foi pouco noticiado. A aceitação tácita desses crimes reflete o entendimento de que Gaza é um território ocupado, e que Israel está autorizado a implementar seus programas de punição da população civil por desobedecer aos seus comandos – sob os pretextos aos quais sempre retornamos, quase universalmente aceitos, mas claramente frouxos. Mais uma vez, a falta de atenção faz sentido. Por décadas Israel vem sequestrando barcos em águas internacionais entre o Chipre e o Líbano, matando ou sequestrando passageiros, algumas vezes levando-os para as prisões de Israel, inclusive para prisões secretas e câmaras de tortura, para tomá-los como reféns durante anos. Se essas práticas são rotina, por que tratar um novo crime com mais do que um bocejo? O Chipre e o Líbano reagem bastante, mas o que são esses países na ordem das coisas?Ditadura egípcia, o mais vergonhoso dos regimes árabesQuem se preocupa, por exemplo, se o editor do Libano Daily Star, geralmente pró-ocidente, escreve que “algo como um milhão e meio de pessoas em Gaza estão sendo submetidas à administração assassina de uma das mais avançadas tecnologicamente, mas moralmente regressivas, máquinas de guerra”? É frequentemente sugerido que os palestinos se tornaram para o mundo árabe o que os judeus eram para a Europa no período pré-Segunda Guerra, e há algo de verdadeiro nessa interpretação. Como algo tão repugnantemente adequado, que, assim como europeus e norte-americanos viraram as costas quandos os nazis perpetravam o holocausto, os árabes estão buscando um jeito de não fazer nada, enquanto os israelenses massacram as crianças palestinas”. Talvez o mais vergonhoso dos regimes árabes seja a brutal ditadura egípcia, a beneficiária de muita ajuda militar norte-americana, além de Israel. De acordo com a imprensa libanesa, Israel ainda “sequestra rotineiramente civis libaneses do lado libanês da Linha Azul [a fronteira internacional], mais recententemente em Dezembro de 2008". E, é claro, “os aviões israelenses invadem o espaço aéreo libanês, numa violação diária da Resolução 1701 das Nações Unidas” (O acadêmico libanês Amal Saad-Ghorayeb, Daily Star, 13 de Janeiro). Isso também vem acontecendo há muito tempo. Quando condenou a invasão do Líbano em 2006, o proeminente analista estratégico israelense, Zeev Maoz, escreveu na imprensa israelense que:“Israel violou o espaço aéreo libanês ao levar a cabo missões de reconhecimento quase diariamente, desde a retirada do sul do Líbano, seis anos atrás. É verdade que esses sobrevôos de reconhecimento não causaram quaisquer baixas, mas uma violação de fronteira é uma violação de fronteira. Aqui, também, Israel não tem a moral elevada”. E em geral não há base para o “consenso estabelecido em Israel de que a guerra contra o Hizbollah no Líbano seja apenas uma guerra moral e justa”, um consenso “baseado numa memória seletiva de curto prazo, numa perspectiva introvertida e segundo critérios dúbios. Essa não é uma guerra justa, o uso da força é excessivo e indiscriminado, e seu fím último é a extorsão”.Como Maoz também lembra aos seus leitores israelenses que sobrevôos com bombas de som para aterrorizar libaneses são os menores dos crimes de Israel no Líbano, aparte as cinco invasões desde 1978:“Em 28 de julho de 1988 as Forças Especiais Israelenses sequestraram Sheikh Obeid, e em 21 de maio de 1994 Israel sequestrou Mustafa Dirani, responsável pela captura do piloto israelense Ron Arad [quando ele estava bombardeando o Líbano em 1986]. Israel mantém cativos esses e mais 20 libaneses capturados em circunstâncias não esclarecidas na prisão por longos períodos, sem julgamento. Eles foram usados como 'moeda de barganha' humana. Aparentemente, quando o Hizbollah sequestra israelenses para fins de 'troca' de prisioneiros se trata de algo moralmente repreensível, e militarmente passível de penalidade; mas não se é Israel que está fazendo exatamente a mesma coisa” e numa escala muito maior e ao longo de muitos anos. As práticas corriqueiras de Israel são significativas mesmo se não levamos em conta o que elas revelam da criminalidade israelense e do apoio que o Ocidente lhe dá. Como indica Maoz, essas práticas revelam a completa hipocrisia da exigência standard de que Israel tinha o direito de invadir o Líbano mais uma vez, em 2006, quando soldados israelenses foram capturados na fronteira, na primeira violação de fronteira protagonizada pelo Hizbollah nos seis anos que se seguiram à retirada de Israel do sul do país que ocupou, violando as ordens do Conselho de Segurança da ONU e retrocedendo 22 anos, enquanto durante esses seis anos Israel violou a fronteira quase diariamente com impunidade e silêncio, do lado de cá. Mais uma vez, a hipocrisia é rotina. Então Thomas Friedman, enquanto explica como essa sub-raça deve ser “educada” pela violência terrorista, escreve que a invasão israelense do Líbano em 2006, destruindo de novo a maior parte do sul do país e Beirute e matando mais 1000 civis é apenas um ato de autodefesa, respondendo ao crime do Hizbollah de “lançar-se numa guerra não provocada através da fronteira Israel-Líbano reconhecida pelas Nações Unidas, depois da retirada unilateral de Israel do Líbano”. Deixando de lado a mentira, ataques terroristas muito mais destrutivos e mortíferos contra israelenses do que qualquer um que tenha sido desferido estariam plenamente justificados, em resposta às práticas israelenses no Líbano e em alto mar, que excedem vastamente o crime do Hizbollah de capturar dois soldados na fronteira. O veterano especialista em Oriente Médio do NYT certamente sabe desses crimes, ao menos se leu o próprio jornal em que escreve: por exemplo, o parágrafo 18 de uma história de trocas de prisioneiros em Novembro de 1983 que observa, casualmente, que 37 dos prisioneiros árabes “tinham sido capturados recententemente pela Marinha Israelense enquanto tentavam ir do Chipre a Trípoli”, no norte de Beirute. "Isso somos nós e aquilo, eles"É claro que todas essas conclusões sobre ações adequadas contra os ricos e poderosos estão baseadas num vício fundamental: isso somos nós e aquilo, eles. Esse é um princípio crucial, profundamente enraizado na cultura Ocidental, suficiente para solapar até a mais precisa analogia e o mais impecável raciocínio. Enquanto escrevo, um outro barco se dirige de Chipre para Gaza, “levando suprimentos médicos de urgência em caixas seladas, verificadas pelas alfândegas no Aeroporto Internacional de Larnaca e no Porto de Larnaca”, dizem os organizadores. Os passageiros incluem membros do Parlamento Europeu e médicos. Israel tem sido notificado do seu intento humanitário. Com suficiente pressão popular, eles devem conseguir realizar sua missão em paz. Os novos crimes que os EUA e Israel vêm cometendo em Gaza nas últimas semanas não se encaixam facilmente em nenhuma categoria standard – à exceção da categoria familiaridade. Eu acabei de dar vários exemplos, e vou retornar a outros. Literalmente, os crimes caem sob a categoria oficial das definições governamentais dos EUA de “terrorismo”, mas essa designação não captura sua enormidade. Eles não podem ser chamados de “agressão”, porque estão sendo conduzidos em território ocupado, como os EUA tacitamente concede. Na sua história geral dos assentamentos israelenses em territórios ocupados, os Senhores da Terra [Lords of the Land], Idit Zertal e Akiva Eldar dizem que, depois de Israel ter retirado suas forças de Gaza em agosto de 2005, o território arruinado não foi liberado “por nem sequer um dia do controle militar israelense ou do preço da ocupação que seus habitantes pagam todos os dias...Israel deixou para trás terra arrasada, serviços devastados e pessoas sem presente nem futuro. Os assentamentos foram destruídos num movimento não generoso de um ocupante não esclarecido, que de fato continua a controlar o território e mata e molesta seus habitantes por meio de seu formidável poder militar” - exercido com extrema selvageria, graças ao apoio fime e à participação dos EUA. O ataque israelo-norte-americano em Gaza intensificou-se em janeiro de 2006, poucos meses depois da retirada formal dos assentamentos, quando os palestinos cometeram um verdadeiro crime hediondo: eles votaram “errado” numa eleição livre. Como outros, os palestinos aprenderam que não se desobedece impunemente aos comandos do Senhor, que continua a tagarelar seu “anseio por democracia”, sem suscitar ridículo nas classes educadas, outra conquista impressionante. À medida que os termos “agressão” e “terrorismo” são inadequados, algum termo novo é necessário para a tortura sádica e covarde de um povo enjaulado, sem possibilidade de escapar, enquanto estão sendo reduzidos a pó pelo mais sofisticado dos produtos da tecnologia militar norte-americana – usado na violação de leis internacionais e mesmo das próprias leis norte-americanas, mas por auto-declarados estados fora-da-lei, o que é apenas mais uma tecnicalidade menor. Também é tecnicalidade menor o fato de que em 31 de dezembro, enquanto os habitantes aterrorizados de Gaza procuravam desesperadamente abrigo do ataque brutal, Washington contratou um navio mercante alemão para transportar da Grécia para Israel um pesado carregamento de 3000 toneladas de munição “não identificada”. Essa expedição “segue o fretamento de um navio comercial que transporta dos EUA para Israel um carregamento muito maior de material bélico, antes do ataques aéreos de dezembro sobre a faixa de Gaza”, disse a Reuters.Tudo isso mais 21 milhões de dólares em ajuda militar norte-americana fornecida pela administração Bush a Israel, a maioria sob a forma de subvenções. “A intervenção de Israel na Faixa de Gaza foi fortemente alimentada pelas armas fornecidas pelos EUA, pagas com dinheiro dos contribuintes”, informou a New American Foundation, que monitora o comércio de armamento. A última expedição foi interditada por uma decisão do governo grego de impedir a utilização de seus portos para “aprovisionamento do exército de Israel”. A resposta da Grécia aos crimes israelenses apoiados pelos EUA é bastante diferente da performance covarde da maior parte dos dirigentes da Europa. Essa distinção mostra que Washington talvez tenha sido bastante realista ao tomar a Grécia como parte do Oriente Médio, não da Europa, até o golpe em 1974 da ditadura fascista sustentada pelos EUA. Pode ser que a Grécia seja civilizada demais para fazer parte da Europa. Caso alguém tenha achado o momento da entrega das armas a Israel curioso, o Pentágono tem uma resposta: o carregamento chegaria muito tarde para que desse tempo de ser usado no ataque à Faixa de Gaza, e o material militar, o que quer que ele seja, devia estar pré-posicionado em Israel para o uso do exército norte-americano. Talvez seja exatamente isso. Um dos numerosos serviços que Israel oferece a seu patrão é o de lhe fornecer uma base militar na periferia de uma das maiores fontes energéticas do mundo. Pode portanto servir de base avançada para uma agressão dos EUA – ou, para utilizar termos técnicos, para “defender a região do Golfo” e “assegurar sua estabilidade”. O enorme fluxo de armas para Israel serve a muitos propósitos. O analista político do Oriente Médio, Mouin Rabbani, observa que Israel pode testar novas armas contra alvos indefesos. Isso serve a Israel e aos EUA “duplamente, de fato, uma vez que as versões de menor performance dessas mesmas armas são vendidas com preços inflacionados aos estados árabes, que contribuem eficazmente para a indústria miliar dos EUA e para as subvenções militares norte-americanas, em Israel”. Essas são funções suplementares que Israel exerce num Oriente Médio dominado pelos Estados Unidos, e uma das razões pelas quais Israel é tão favorecido pelas autoridades estatais [dos EUA], juntamente a uma série de corporações norte-americanas de alta tecnologia e, é claro, a indústrias militares e de inteligência. As armas e treinamentos dos EUA desempenharam papel em 20 das 27 maiores guerras em 2007Deixando Israel de lado, os EUA são de longe o maior fornecedor de armas do mundo. O relatório recente da New American Foundation conclui que “as armas e treinamentos dos EUA desempenharam papel em 20 das 27 maiores guerras em 2007”, obtendo uma receita de 23 bilhões de dólares que aumentou para 32 bilhões, em 2008. É pouco impressionante que, dentre as inúmeras resoluções da ONU a que os EUA se opôs na sessão de dezembro de 2008 estava uma solicitando regulação do comércio de armas. Em 2006, só os EUA votou contra o tratado, mas em novembro de 2008 ganhou um novo parceiro: Zimbábue. Também houve outros votos notáveis na sessão de dezembro da ONU. Uma resolução relativa ao “direito do povo palestino à autodeterminação” foi aprovada por 173 a 5 (EUA, Israel, dependências das Ilhas Pacíficas; os EUA e Israel com pretextos evasivos). O voto reafirma a postura de rejeição israelo-norte-americana, enveredando no isolamento internacional. Da mesma maneira, uma resolução defendendo a “liberdade universal de viajar e a importância vital do reagrupamento familiar” foi adotada com a oposição de Israel, EUA e as dependências das Ilhas Pacíficas, presumivelmente com os palestinos na cabeça. Votando contra o direito ao desenvolvimento, os EUA perderam Israel mas ganharam a Ucrânia. Votando contra o “direito à alimentação”, os EUA esteve sozinho, um fato particularmente notável, diante da enorme crise alimentar, obscurecendo a crise financeira que ameaça as economias ocidentais. Há boas razões por que o registro desses votos é consistentemente escondido e despachado para o recôndito da memória de toda mídia e dos intelectuais conformistas. Não seria inteligente revelar ao público o que os votos de seus representantes implicam. No caso presente seria claramente inútil deixar o público saber que a postura de rejeição de Israel e dos EUA, impedindo um acordo de paz há muito defendido pelo mundo, chega ao extremo de negar aos palestinos até mesmo o direito abstrato de autodeterminação. Um dos heróicos voluntários em Gaza, o médico norueguês Mads Gilbert descreve a cena de horror como uma “guerra total dirigida contra a população civil de Gaza”. Ele avalia que metade das perdas é de mulheres e crianças. Dentre os homens, quase todos também são civis, em padrões civilizados. Gilbert informa que mal viu, dentre as centenas de corpos, uma perda militar. O IDF concorda. O Hamas “ou combate de longe ou não combate, simplesmente”, disse Ethan Bronner, enquanto informa, “inventariando os ganhos” do ataque israelo-norte-americano. Então, o poder dos homens do Hamas permanece intacto, e a maior parte dos que sofreram é de civis: um resultado positivo, segundo uma doutrina muito bem difundida. Essas estimativas foram confirmadas pelo sub-secretário geral da ONU para assuntos humanitários, John Holmes, que informou ser uma “estimativa confiável” a de que a maior parte dos civis mortos eram mulheres e crianças, numa crise humanitária que “está piorando a cada dia, enquanto a violência continua”. Mas poderíamos ficar confortáveis com as palavras da Ministra israelense para Assuntos Estrangeiros, Tzipi Livni, a pomba pacifista da atual campanha eleitoral, que assegurou ao mundo que não há “crise humanitária” em Gaza, graças à benevolência israelense. Como outros que se preocupam com seres humanos e seus destinos, Gilbert e Holmes imploraram por um cessar-fogo. Mas não agora. “Nas Nações Unidas, os EUA impediu o Conselho de Segurança de fazer uma declaração formal no sábado à noite, pedindo um imediato cessar-fogo”, mencionou, de passagem, o NYT. A razão oficial era que “não há indicação de que o Hamas iria respeitar qualquer acordo”. Nos anais das justificações do deleite de massacrar, essa deve estar entre as mais cínicas. Isso tudo certamente sob Bush e Rice, que seriam em breve substituídos por Obama, o qual repete com compaixão que “se os mísseis caíssem sobre minhas duas filhas dormindo, eu faria tudo para pôr um fim nisso”. Ele fazia referência às crianças israelenses, não às centenas de crianças aos pedaços, na Faixa de Gaza, com armas dos EUA. Além disso, Obama manteve seu silêncio. Poucos dias depois, sob intensa pressão internacional, os EUA sustentaram uma resolução do Conselho de Segurança apelando a um “cessar-fogo duradouro”. Essa resolução passou por 14 a 0; os EUA se absteve. Os falcões de Israel e dos EUA ficaram enraivecidos porque os EUA não opôs seu veto, como de hábito. A abstenção, contudo, foi suficiente para dar a Israel, senão uma luz verde, pelo menos uma amarela, na escalada de violência a qual se dedicou com afinco até a posse de Obama, conforme o previsto. Quando o cessar-fogo (teoricamente) entrou em vigor em 18 de janeiro, o Centro Palestino para os Direitos Humanos publicou as cifras do último dia do ataque: 54 palestinos assassinados, incluindo 43 civis desarmados, 17 deles crianças, enquanto o IDF continuou a bombardear casas de civis e escolas da ONU. O número de mortos, eles estimaram, chegou a 1184, incluindo 844 civis, dentre os quais 281 crianças. O IDF continuou a usar bombas incendiárias ao longo da Faixa de Gaza, e a destruir casas e terras cultivadas, forçando civis a deixarem suas casas. Poucas horas depois, a Reuters informou que mais de 1300 tinham sido mortos. A equipe do Centro Al Mezan, que monitora cuidadosamente as baixas e a destruição, visitou áreas que estavam antes inacessíveis por causa do pesado e incessante bombardeio. Eles descobriram dúzias de corpos de civis em decomposição sob as pedras de casas destruídas ou removidas pelas escavadoras israelenses. Quarteirões urbanos inteiros desapareceram. O número de mortos e feridos certamente está subestimado. E é pouco provável que venha a se instaurar qualquer inquérito sobre essas atrocidades. Crimes de inimigos oficiais estão sujeitos a investigações rigorosas, mas os nossos próprios são sistematicamente ignorados. A prática comum, de novo e compreensível, da parte dos senhores. A Resolução do Conselho de Segurança pediu a interrupção da chuva de armas em Gaza. Os EUA e Israel (Rice-Livni) rapidamente chegaram a um acordo sobre as medidas para assegurar esse fim, concentrando-se nas armas iranianas. Não há necessidade de interromper o contrabando de armas dos EUA para Israel, porque não há contrabando: o imenso fluxo de armas é bastante público, mesmo quando não é reportado, como no caso da expedição de armas anunciada enquanto ocorria a matança em Gaza. A Resolução também pedia que se “assegurasse a reabertura sustentável dos pontos de passagem, com base no Acordo sobre os Movimentos e Acesso (AMA) assinado em 2005, entre a Autoridade Palestina e Israel”. Esse acordo estipulava que os acessos para Gaza seriam abertos de maneira contínua e que Israel permitiria a passagem dos bens e das pessoas entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. O acordo Rice-Livni não disse coisa alguma quanto a esse aspecto da Resolução do Conselho de Segurança. EUA e Israel já tinham de fato abandonado o Acordo de 2005 como parte da punição aos palestinos por eles terem votado errado na eleição de janeiro de 2006. Na entrevista coletiva de Rice depois do Acordo Rice-Livni, ela enfatizou os esforços constantes para solapar os resultados de uma eleição livre no mundo árabe. “Há muito o que pode ser feito”, disse ela, “para tirar Gaza do reino de trevas do Hamas e a trazer para a luz que a boa governança da Autoridade Palestina pode conduzir” - ao menos enquanto esta permanecer como um cliente leal, tomado pela corrupção e dedicado a conduzir uma repressão severa, quer dizer, obediente. EUA e Israel entregaram ao Irã uma doce vitóriaRetornando de uma viagem ao mundo árabe, Fawwaz Gerges afirmou com força aquilo que outros já haviam reportado sobre o tema. O efeito da ofensiva israelo-norte-americana em Gaza tem sido o enfurecimento das populações e o surgimento de amargura e ressentimento dos agressores e de seus colaboradores. “É suficiente dizer que os países árabes assim chamados de moderados (isto é, aqueles que seguem as ordens de Washington) estão na defensiva, e que a resistência conduzida pelo Irã e pela Síria é a maior beneficiária. Mais uma vez, Israel e a administração Bush entregaram à liderança iraniana uma doce vitória”. Mais ainda, “o Hamas provavelmente emergirá como força política mais poderosa do que antes e vai provavelmente ultrapassar o Fatah, o aparelho de governo do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas”, o favorito de Rice. Vale a pena ter em mete que o mundo árabe não está escrupulosamente protegido da única tevê que transmite ao vivo a cobertura do que está acontecendo em Gaza, a saber, a “calma e equilibrada análise do caos e da destruição”, feita pelos extraordinários repórteres da al-Jazeera, que oferece “uma alternativa inflexível aos canais terrestres”, como informou o Financial Times. Em 105 países que carecem das nossas eficientes modalidades de autocensura, as pessoas podem ver o que está acontecendo 24 por dia, e o impacto deve ser muito grande. Nos EUA, o NYT informa que “o quase total blackout a al-Jazeera se deve sem dúvida às críticas agudas que a emissora recebeu do governo dos EUA, nas primeiras etapas da guerra no Iraque, por sua cobertura da invasão norte-americana”. Cheney e Rumsfeld objetaram, então, obviamente, a mídia independente só poderia obedecer. Há debates bastante sóbrios a respeito do que os ataques visavam a alcançar. Alguns objetivos são comumente discutidos. Entre eles, a retomada da chamada “capacidade de dissuasão” que Israel perdeu nos seus fracassos no Líbano, em 2006 – isto é, a capacidade de aterrorizar qualquer opositor potencial até sua submissão. Há, contudo, objetivos mais fundamentais que tendem a ser ignorados, ainda que eles também pareçam razoavelmente óbvios quando damos uma olhada na história recente. Israel deixou Gaza em setembro de 2005. Os linha-dura racionais, como Ariel Sharon, o santo padroeiro do movimento dos assentados, entendeu que seria sem sentido subsidiar alguns milhares de assentamentos israelenses nas ruínas de Gaza, protegidos pelo IDF enquanto usam muita terra com recursos escassos. Faria mais sentido tornar Gaza uma das maiores prisões do mundo e transferir os assentamentos para a Cisjordânia, território muito mais valioso, onde Israel é bastante explícito quanto a suas intenções, nas palavras e ainda mais nos atos. Um objetivo é anexar a terra árabe, o abastecimento de água, e seus agradáveis subúrbios de Jerusalém e Tel Aviv que ladeiam o muro de separação, irrelevantemente declarado ilegal pela Corte Internacional de Justiça. Isso inclui uma Jerusalém vastamente expandida, em violação às solicitações do Conselho de Segurança que datam de 40 anos, também irrelevante. Israel também está tomando para si o Vale do Jordão, algo como um terço da Cisjordânia. O que resta está, portanto, aprisionado e, mais ainda, partido em dois fragmentos por assentamentos judaicos que dividiram o território em 3 pedaços: um no leste da Grande Jerusalém, passando pela cidade de Ma'aleh Adumim, desenvolvida durante os anos Clinton para separar a Cisjordânia; e dois no norte, passando pelas cidades de Ariel e Kedumim. O que sobra para os palestinos está segregado por centenas de checkpoints, a imensa maioria deles, ilegais. Os checkpoints não tem relação com a segurança de Israel, e se algum deles visa a salvaguardar assentamentos é completamente ilegal, como determina a Corte Internacional de Justiça. Na realidade, o seu maior objetivo é aterrorizar a população palestina e fortificar o que o pacifista isralense Jeff Halper chama de “matriz de controle”, constituída para tornar a vida insuportável para as “bestas-bípedes” que ficarão como “baratas tontas drogadas correndo dentro de uma garrafa” se pretenderem manter suas casas e sua terra. Tudo isso é bastante justo, porque eles são “como gafanhotos, em comparação conosco”, portanto, suas cabeças podem ser “amassadas contra pedras e muros”. Essa terminologia provém do alto comando político e militar israelense, neste caso, reverenciados como “príncipes”. E atitudes moldam políticas. As pregações das autoridades rabínicasOs delírios dos comandos militar e político são peixe pequeno se comparados às pregações das autoridades rabínicas. Elas não são figuras marginais. Ao contrário, exercem alta influência no exército e no movimento dos assentados, os quais Zertal e Eldar descrevem como os “senhores da terra”, com enorme impacto na política. Os soldados que estavam lutando no norte de Gaza foram agraciados com uma visita “inspiradora” de dois rabinos importantes, que lhes explicaram que não havia “inocentes” em Gaza, de modo que todos eram alvos legítimos, citando uma passagem dos Salmos, pedindo a Deus que pegue as crianças dos opressores de Israel e as jogue contra as pedras. Os rabinos não estavam caminhando em terreno desconhecido. Um ano antes, o ex-líder da comunidade sefaradí escreveu ao Primeiro Ministro Olmert, informando-o que todos os civis em Gaza são coletivamente culpados pelos ataques de foguetes, de modo que não havia “absolutamente qualquer proibição moral contra a matança indiscriminada de civis durante uma potencial ofensiva militar massiva em Gaza, visando a interromper o lançamento dos foguetes”, conforme reportou o Jerusalem Post. Seu filho, o grande rabino de Safed, explicou mais elaboradamente:“Se eles não pararem depois de matarmos 100, então temos de matar mil, e se depois de 1000 não pararem, então devemos matar 10 000. Se ainda assim eles não pararem, devemos matar 100 000, mesmo um milhão. O que quer que tenha de ser feito para fazer eles pararem”. Pontos de vista similares são expressos por proeminentes figuras seculares americanas. Quando Israel invadiu o Líbano em 2006, o professor da Faculdade de Direito da Universidade Harvard, Alan Dershowitz, explicou no Huffington Post, um jornal liberal online, que todos os libaneses são alvos legítimos da violência de Israel. Os cidadãos libaneses estão “pagando o preço” por apoiarem o “terrorismo” - isto é, por apoiarem a resistência à invasão israelense. De acordo com esse raciocínio, os civis libaneses não são mais imunes do que os austríacos que apoiaram os nazis. A fatwa do rabino sefaradí se lhes aplica. Num vídeo no site do Jerusalem Post, Dershowitz chega a ridicularizar a excessiva comparação de mortos palestinos a israelenses: deveria ser aumentada de 1000 para um, disse ele, ou mesmo 1000 a zero, querendo dizer que os brutos deveriam ser completamente exterminados. É claro, ele está se referindo a “terroristas”, uma categoria vasta que inclui as vítimas do poder de Israel, à medida que “Israel nunca toma civis como alvos”, declarou ele, enfaticamente. Segue-se que palestinos, libaneses, tunisianos, na verdade qualquer um que apareça no caminho das armas brutais do Santo Estado é um terrorista, ou uma vítima acidental de seus crimes justos. Não é fácil encontrar contrapartidas históricas dessas performances. Talvez seja de algum interesse que elas sejam consideradas inteiramente apropriadas na cultura moral e intelectual reinante – quando são produzidas do “nosso lado”, como são; das bocas dos inimigos oficiais palavras desse tipo gerariam justas indignações e exigências de imediata e massiva violência em revanche. A afirmação de que “nosso lado” nunca toma civis como alvo é da doutrina familiar dos que monopolizam o significado da violência. E há alguma verdade nisso. Geralmente não tentamos matar civis em particular. Antes, levamos a cabo atos assassinos que sabemos vai massacrar muitos civis, mas sem qualquer intento específico de matar alguns em particular.Segundo o direito, essas práticas rotineiras podem cair sob a categoria da indiferença depravada, mas essa não é uma designação adequada para os padrões da prática e da doutrinas imperiais. É mais parecido com andar na rua sabendo que podemos matar formigas, mas sem a intenção de fazê-lo, porque elas valem tão pouco que isso simplesmente não importa. O mesmo ocorre quando Israel comete ações que sabe matarão “gafanhotos” e “bestas-bípedes” a quem acontece de estar infestando a terra que será “liberada”. Não há um bom termo para designar essa forma de depravação moral que seja outra coisa que o também familiar assassinato deliberado. "O direito eterno e histórico a esta terra inteira"Na antiga Palestina, os seus proprietários de direito (divino, como informa “Os Senhores da Terra”) podem decidir conceder aos drogados algumas poucas baganas divididas em parcelas. Não segundo o direito, contudo: “Eu acreditava, e até hoje ainda acredito, no eterno e histórico direito de nosso povo a esta terra inteira”, informou o Primeiro Ministro Olmert numa sessão do Congresso em maio de 2006, arrancando aplausos. Ao mesmo tempo em que anunciava seu programa de “convergência” para tomar o que for valioso na Cisjordânia, deixando os palestinos apodrecerem em cantões. Ele não foi específico quanto às fronteiras da “terra inteira”, mas então, o empreendimento sionista nunca o foi, e por boas razões: a expansão é uma dinâmica interna muito importante. Se Olmert ainda é leal às suas origens no Likud, ele pode ter querido dizer ambos os lados do Rio Jordão, inclusive o atual estado da Jordânia, ou ao menos parte valiosa deste. O “direito eterno e histórico a esta terra inteira” de nosso povo contrasta dramaticamente com a falta de qualquer direito à autodeterminação dos seus habitantes temporários, os palestinos. Como foi antes anotado, essa última falta foi reiterada por Israel e seu patrono em Washington, em dezembro de 2008, no seu usual isolamento acompanhado de silêncio retumbante. Os planos traçados por Olmert em 2006 foram então abandonados, como não sendo suficientemente extremo. Mas o que substitui o programa convergência e as ações diárias para implementá-lo têm em geral a mesma concepção. Elas remontam aos primeiros dias da ocupação, quando o ministro da defesa, Moshe Dayan explicou poeticamente que “hoje a situação lembra a complexa relação entre um homem beduíno e uma menina por ele sequestrada contra sua vontade...Vocês, palestinos, enquanto nação, não nos querem hoje, mas nós vamos mudar sua atitude forçando nossa presença sobre vocês”. Vocês vão “viver como cachorros, e quem partir, partirá”, enquanto tomamos o que queremos. Que esses programas são criminosos nunca foi o ponto. Imediatamente depois da guerra de 1967, o governo israelense foi informado por sua mais alta autoridade legal, Teodor Meron, que “assentamentos civis nos territórios administrados transgridem regras da Quarta Convenção de Genebra”, a fundação da lei humanitária internacional. O Ministro da Justiça de Israel concordou. A Corte Internacional de Justiça endossou, por unanimidade, a conclusão essencial em 2004, e a Alta Corte Israelense tecnicamente concordou, enquanto na prática discordou, no seu estilo habitual. Na Cisjordânia, Israel pode prosseguir seus programas criminosos com o apoio dos EUA e sem distúrbios, graças ao seu controle militar efetivo e, até agora, à cooperação colaboracionista das forças de segurança palestinas, armadas e treinadas pelos EUA e por ditaduras aliadas. Também pode prosseguir assassinando e cometendo outros crimes, enquanto assenta brutalmente debaixo da proteção do IDF. Mas, enquanto a Cisjordânia vem sendo efetivamente subjugada pelo terror, ainda há resistência na outra metade da Palestina, a Faixa de Gaza. Ela também deve ser sufocada para que os programas israelo-norte-americanos de anexação e destruição da Palestina não sejam perturbados. Então, veio a invasão de Gaza. O momento da invasão foi supostamente influenciado pela eleição israelense. Ehud Barak, que estava perdendo nas pesquisas, passou a ganhar um assento no parlamento para cada 40 árabes assassinados nos primeiros dias do massacre, calculou o comentarista israelense Ran HaCohen. Isso pode mudar, contudo. À medida que os crimes ultrapassem o que a campanha de propaganda cuidadosamente construída for capaz de suportar, mesmo os falcões confirmados começarão a se preocupar que a carnifica esteja “destruindo a alma e a imagem [de Israel]. Destruindo-a nas telas de tevê, nas salas de estar da comunidade internacional e, de maneira mais importante, na América de Obama” (Ari Shavit). Shavit estava particularmente preocupado com o “bombardeio israelense de uma 'instalação' da ONU...logo no dia em que o secretário geral das Nações Unidas estava visitando Jerusalém”, um ato “para além de lunático”, disse. Alguns detalhes sejam acrescidos: a “instalação” era o posto da ONU, na cidade de Gaza, que continha depósitos da UNRWA [Agência das Nações Unidas para assistência e trabalho nos campos dos refugiados palestinos]. O bombardeio destruiu “centenas de toneladas de alimentos e de remédios de urgência que iriam ser distribuídos para os atingidos que estão nos hospitais, nos abrigos e nos centros de alimentação”, de acordo com o diretor da UNRWA, John Ging. Ao mesmo tempo, ataques destruíram dois andares do hospital al-Quds, deixando-o em chamas, e também um segundo entreposto dirigido pelo Crescente Vermelho Palestino. Na densamente povoada vizinhança de Tal-Hawa o hospital foi destruído pelos tanques israelenses “depois que centenas de habitantes aterrorizados de Gaza tinham buscado abrigo, quando as forças de terra de Israel entraram no bairro”, reportou AP. Não sobrou nada a ser salvo nas ruínas do hospital em chamas. “Eles atacaram o prédio, o prédio do hospital. Pegou fogo. Tentamos evacuar os doentes e feridos e as pessoas que estavam lá dentro. Lança-chamas foram lançados e puseram fogo, cujas chamas queimaram, de novo e mais uma vez, pela terceira vez”, o paramédico Ahmad Al-Haz contou à AP. Suspeita-se que tenha sido usado fósforo branco nesses lançamentos, como também em outros, que causaram sérias queimaduras e ferimentos. As suspeitas foram confirmadas pela Anistia Internacional depois que os intensos bombardeios cessaram, tornando assim possível que se fizesse uma investigação. Antes, Israel tinha inteligentemente barrado o acesso de todos os jornalistas, mesmo os israelenses, enquanto procedia com seus crimes em fúria total. O uso por Israel de fósforo branco contra civis em Gaza é “claro e inegável”, disse a Anistia Internacional. Seu uso repetido em áreas densamente povoadas “é um crime de guerra”, concluiu.Eles encontraram as explosões de fósforo branco disseminadas nos prédios residenciais, todos incendiados, “pondo em perigo outros residentes e seus bens”, em particular as crianças, que se “atraem pelos detritos de armas frequentemente ignorando seus perigos”. Os alvos principais, disse a AI, estavam no interior da UNRWA, onde o “fósforo branco caiu ao lado de caminhões de combustível e provou um imenso incêndio que destruiu as toneladas de ajuda humanitária”, ainda que as autoridades israelenses “tivessem assegurado que não seria lançado um novo ataque sobre o complexo da UNRWA”.No mesmo dia, “um ataque de fósforo branco foi lançado contra o hospital Al-Qods, na cidade de Gaza, também causando um incêndio que obrigou a equipe do hospital a evacuar os pacientes...o fósforo branco que chega à pele queima profundamente, chega aos músculos e mesmo aos ossos, e queima até que seja privado de oxigênio”. Que esses bombardeios tenham ocorrido intencionalmente ou por uma cínica indiferença, não importa. O fato é que esses crimes são inevitáveis quando uma arma dessa magnitude é utilizada em ataques sobre civis. É contudo um erro se concentrar nas grosseiras violações de Israel do jus in bello, das leis designadas para controlar práticas que são muito selvagens. A própria invasão é de longe um crime muito mais sério. E se Israel tivesse infligido danos horrendos usando arco e flecha, ainda assim seria um ato criminoso de extrema perversidade. Agressões sempre têm um pretexto: neste caso é que a paciência de Israel tinha chegado ao fim, diante dos ataques dos foguetes do Hamas, como disse Barak. O mantra sem fim que se repete é que Israel tem o direito de usar a força para se defender. A tese é parcialmente defensável. Jogar foguetes é criminoso, e é verdade que um estado tem o direito de se defender contra atos criminosos. Mas disso não se segue que tenha o direito de se defender pela força. Isso ultrapassa em muito qualquer princípio que nós aceitaríamos ou deveríamos aceitar. A Alemanha nazista não tinha o direito de usar da força para se defender contra o terrorismo dos partisans. A Noite dos Cristais Quebrados não não é justificada pelo assassinato, por Herschel Grynszpan, de um oficial da Embaixada Alemã em Paris. Os ingleses não estavam justificados ao usar a força para se defender contra o (bastante real) terror dos colonos norte-americanos que queriam independência, ou ao aterrorizar os irlandeses católicos em resposta ao terror do IRA – e quando eles finalmente passaram à política sensata de se dedicarem a reclamações legítimas, o terror terminou. Isso não é uma questão de “proporcionalidade”, mas de escolha pela ação em primeiro lugar: há uma alternativa à violência?Todo recurso à força exige uma pesada carga de prova, e devemos perguntar se isso pode ser o caso diante do esforço de Israel de sufocar qualquer resistência com suas ações criminosas diárias Gaza e na Cisjordânia, que continuam implacáveis depois de mais de 40 anos. Talvez eu possa citar uma de minhas entrevistas na imprensa de Israel sobre o anúncio de Olmert anunciando planos de convergência para a Cisjordânia: “Os EUA e Israel não toleram qualquer resistência a esses planos, preferindo fingir – falsamente, é claro – que “não há parceiro”, como o fizeram com programas que remontam há anos. Podemos lembrar que Gaza e a Cisjordânia são reconhecidos como sendo uma unidade, de modo que se a resistência aos planos israelo-norte-americanos de anexação-cantonização é legítima na Cisjordânia e também o é em Gaza”. "Não há foguetes lançados da Cisjordânia"O jornalista palestino-americano Ali Abunimah observou que “não há foguetes lançados em Israel da Cisjordânia, e ainda assim as execuções extrajudiciais, os assassinatos, o roubo de terras, os pogroms e os sequestros nunca deixaram de acontecer num dia sequer de trégua. Mahmoud Abbas, que é apoiado pelo ocidente, aceitou todas as exigências de Israel. Sob os olhos orgulhosos dos conselheiros militares norte-americanos, Abbas reuniu “forças de segurança” para lutar contra a resistência, com suporte de Israel. Nada disso poupou um palestino sequer, na Cisjordânia, da colonização implacável de Israel” - graças ao apoio norte-americano. O respeitado parlamentar palestino Mustapha Barghouti acrescenta que, depois da extravagância de Bush em Annapolis, em novembro de 2007, com muita retórica edificante sobre a dedicação à paz e à justiça, os ataques israelenses sobre os palestinos aumentaram agressivamente, com um crescimento de quase 50% na Cisjordânia, entre os quais o crescimento agressivo de assentamentos e de checkpoints. Obviamente essas ações criminosas não são as responsáveis pelos foguetes lançados desde Gaza, ainda que o contrário possa bem ser o caso, sugere, razoavelmente, Barghouti.As reações a crimes de uma potência ocupante podem ser condenadas como criminosas e politicamente insanas, mas aqueles que não oferecem qualquer alternativa não têm base moral para emitir qualquer opinião sobre essas coisas. A conclusão ganha força se aplicada aos que nos EUA escolhem estar diretamente implicados nos crimes em andamento por Israel – em suas palavras, com suas ações, ou com seu silêncio. Tanto mais porque há muitas alternativas claramente não-violentas – as quais, contudo, têm a desvantagem de barrarem os programas de expansão ilegal. Israel tem muitos meios diretos de se defender: pôr um fim nessas ações criminosas nos territórios ocupados e aceitar o antigo consenso internacional relativo ao estabelecimento de dois estados que vem sendo bloqueado pelos EUA e por Israel por mais de 30 anos, desde que os EUA vetaram pela primeira vez uma resolução do Conselho de Segurança pedindo um acordo político nesses termos, em 1976. Eu não vou mais uma vez incorrer na tarefa inglória de rememorar, mas isto é importante para se entender que a rejeição dos EUA e de Israel hoje é ainda mais grosseira do que no passado. A Liga Árabe foi além do consenso, pedindo a plena normalização das relações com Israel. O Hamas repetidas vezes pediu um acordo de dois estados nos termos do consenso internacional. O Irã e o Hizbollah tornaram claro que iriam seguir qualquer acordo que os palestinos aceitassem. Isso deixa os EUA e Israel em esplêndido isolamento, não apenas em palavras. A memória mais detalhada dessas coisas é informativa. O Conselho Nacional Palestino aceitou formalmente o consenso internacional em 1988. A resposta da coalizão governamental de Shamir-Peres, afirmou James Baker, do Departamento de Estado norte-americano, foi que não poderia haver um “estado palestino adicional” entre Israel e a Jordânia – o último já considerado um estado palestino por imposição israelo-norte-americana.Os acordos de Oslo que se seguiram puseram de lado os potenciais direitos nacionais dos palestinos, e a ameaça de que eles pudessem vir a ser obtidos sob uma forma qualquer foi sistematicamente afastada durante o ano de negociação dos Acordos de Oslo, por causa da expansão constante e ilegal de colônias de povoamento de Israel. Colonização que se acelerará em 2000, o último ano no poder do Presidente Bill Clinton e do Primeiro Ministro Barak, durante as negociações em Camp David, que se desenrolaram sobre esse pano de fundo. Depois de ter culpado Yasser Arafat pela ruptura das negociações de Camp David, Bill Clinton se retrata e reconhece que as proposições dos EUA e de Israel eram muito extremistas para os palestinos. Em dezembro de 2000, ele apresentou suas “medidas”, vagas porém mais abertas. Em seguida anunciou que as duas partes tinham aceitado as medidas, ainda que ambas tenham expressado reservas. As duas partes se reencontraram em Taba, Egito, em janeiro de 2001 e estavam muito próximas de um acordo, que iriam poder concluir em alguns dias, declararam na sua última coletiva de imprensa. Mas as negociações foram anuladas prematuramente por Ehud Barak. Esta semana em Taba é a única pausa em mais de 30 anos de rejeicionismo EUA-israelense. Não há razão alguma para que essa pausa no disco não pudesse ser retomada. A versão preferida, recentemente reiterada por Ethan Bronner, é que “muitos no exterior lembram do Senhor Barak como Primeiro Ministro, que em 2000 foi mais longe do que qualquer líder israelense em ofertas de paz aos palestinos, só para ver o acordo fracassar e explodir num violento levante palestino que o derrubou do poder”. É verdade que “muitos no exterior” acreditam nesse contos de fadas enganador, graças ao que Bronner e muitos de seus colegas chamam de “jornalismo”. É comumente alegado que uma solução de dois estados é agora insustentável porque se o IDF tentar remover os assentamentos levaria a uma guerra civil. Isso pode ser verdade, mas é necessário muito mais argumento. Sem recorrer à força para expulsar os assentamentos ilegais o IDF poderia simplesmente se retirar de quaisquer fronteiras estabelecidas por negociações. Os assentados além dessas fronteiras deveriam ter a escolha de deixar suas casas subsidiadas para retornar a Israel, ou permanecer sob a autoridade Palestina. O mesmo era verdadeiro para o cuidadosamente construído “trauma nacional” em Gaza em 2005, tão claramente fraudulento que foi ridicularizado por comentaristas israelenses.Teria sido suficiente para Israel anunciar que o IDF iria se retirar e que os assentados que tinham sido subsidiados para aproveitar sua vida em Gaza iriam subir nos caminhões providenciados para eles e viajado ate suas novas residências subsidiadas na Cisjordânia. Mas isso não teria produzido fotos trágicas de crianças agonizando e interjeições apaixonadas de “nunca mais”. Para resumir, contrariamente à afirmação constantemente reiterada, Israel não tem o direito de usar a força para se defender dos foguetes de Gaza, mesmo se eles fossem tomados como crimes terroristas. Além do mais, as razões são óbvias. O pretexto para lançar ataques não tem mérito. O sequestro de Gilad Shalit e o sequestro de civisHá uma outra razão, mais precisa. Israel tem alternativas de curto prazo ao uso da força em resposta aos foguetes de Gaza? Uma alternativa de curto prazo seria aceitar um cessar-fogo. Algumas vezes Israel fez isso, enquanto instantaneamente o violava. O caso mais recente e relevante é junho de 2008. O cessar-fogo pedindo a abertura de passagens para “permitir a transferência de todo tipo de mercadorias que estavam proibidas e banidas em Gaza”. Israel concordou formalmente, mas imediatamente anunciou que isso não abriria as fronteiras, conforme o acordo, até que o Hamas entregasse Gilad Shalit, um soldado israelense capturado pelo Hamas em junho de 2006. O intransigente rufar de tambores de acusações pela captura de Shalit é, de novo, hipocrisia grosseira, mesmo deixando de lado a longa história de sequestros de Israel. Neste caso, a hipocrisia não poderia ser mais ofuscante. Um dia antes do Hamas sequestrar Shalit, os soldados israelenses entraram na cidade de Gaza e sequestraram dois civis, os irmãos Muanmmar, levando-os a Israel para se juntarem aos milhares de prisioneiros ali mantidos, quase 1000 supostamente sem acusação.Sequestrar civis é de longe um crime mais sério do que capturar um soldado com uma arma de ataque, mas isso foi escassamente reportado, em contraste com o furor sobre Shalit. E tudo o que resta na memória, bloqueando a paz, é a captura de Shalit, outro reflexo da diferença entre humanos e bestas bípedes. Shalit deveria ser devolvido – numa troca justa de prisioneiros. Foi depois da captura de Shalit que os implacáveis ataques a Gaza passaram de meramente viciosos a verdadeiramente sádicos. Mas é também bom lembrar que mesmo após essa captura Israel tinha lançado mais de 7700 ataques no norte de Gaza depois da sua retirada de setembro, sem gerar virtualmente qualquer comentário. Depois de rejeitar o cessar-fogo de junho de 2008 que tinha aceito formalmente, Israel manteve Gaza sitiada. Podemos relembrar que sitiar é um ato de guerra. De fato, Israel sempre insistiu num princípio ainda mais forte: impedir acesso ao mundo externo, mesmo num cerco parcial, é um ato de guerra justificando a violência massiva em resposta. A interferência na passagem de Israel ao Estreito de Tirana era parte do pretexto para Israel invadir o Egito (junto com a França e a Inglaterra), em 1956, e por seu ataque na guerra de 1967. Esse cerco a Gaza é total, não parcial, exceto algumas vezes que os ocupantes, a seu bel prazer, relaxam-no um pouco. É imensamente mais nefasto para os habitantes de Gaza que fechar o Estreito de Tirana era para Israel. Os apoiadores das doutrinas e ações de Israel deveriam, então, não ter problema para justificar os ataques de foguetes da Faixa de Gaza no território israelense.É claro, seguimos mais uma vez o princípio inválido: Isto somos nós, aquilo são eles. Israel não apenas manteve o cerco depois de junho de 2008, mas o fez com extremo rigor. Chegou a proibir a UNRWA de reabastecer suas lojas, “então, quando o cessar-fogo foi desrespeitado, corremos atrás de comida para mais de 750 000 que dependem de nós”, informou o diretor da UNRWA, John Ging, à BBC. Mesmo com Gaza sitiada, o lançamento de foguetes foi reduzido drasticamente. A quebra do cessar-fogo de 4 de novembro com a incursão israelense em Gaza, levou à morte de 6 palestinos, e a uma barragem de foguetes (sem feridos) em retaliação. O pretexto para a incursão era que Israel havia detectado um túnel em Gaza que pode ter sido usado para capturar outro soldado israelense. O pretexto é claramente absurdo, como um número de comentaristas anotaram. Se um túnel desses existisse, e conseguisse chegar à fronteira, Israel poderia facilmente tê-lo barrado lá. Mas, como de hábito, o ridículo pretexto israelense foi tomado como digno de crédito. Qual foi, então, a razão da incursão israelense? Não temos evidências internas do plano israelense, mas sabemos que a incursão veio pouco antes dos planos de conversação do Hamas com o Fatah no Cairo, visando a “reconciliar suas diferenças e criar um só governo, unificado”, informou o correspondente britânico Rory McCarthy. Era para ser o primeiro encontro Hamas-Fatah desde a guerra civil de junho de 2007 que levou o Hamas a controlar Gaza, e teria sido um passo significativo na direção de esforços diplomáticos. Há uma longa história de provocações de Israel para dissuadir a ameaça da diplomacia, alguns já mencionaram. Esse acontecimento pode ter sido apenas mais uma. A guerra civil que levou o Hamas a controlar Gaza é comumente descrita como um golpe militar do Hamas, demonstrando mais uma vez sua natureza maligna. O mundo real é um pouco diferente. A guerra civil foi incitada pelos EUA e por Israel, numa tentativa grosseira de dar um golpe militar para anular as eleições livres que levaram o Hamas ao poder. Isso se tornou público ao menos desde abril de 2008, quando David Rose publicou na Vanity Fair um documento detalhado analisando como Bush, Rice e o assessor de Segurança Nacional, Elliott Abrams “apoiaram uma força armada sob o comando do homem forte do Fatah, Muhammad Dahlan, desencadeando uma sangrenta guerra civil em Gaza e deixando o Hamas mais forte do que nunca”.O relato foi recentemente mais uma vez corroborado no Christian Science Monitor (12 de Janeiro de 2009), por Norman Olsen, que serviu durante 26 anos no exterior, inclusive por quatro anos trabalhando na Faixa de Gaza e quatro anos na Embaixada norte-americana em Tel Aviv, quando se tornou coordenador associado do contraterrorismo no Departamento de Estado. Olson e seu filho detalham as travessuras do Departamento de Estado pretendendo assegurar que seu candidato, Abbas, vencesse as eleições em janeiro de 2006 – ocasião que seria celebrada como um triunfo da democracia. Depois da eleição-combinada fracassar, eles passaram à punição dos palestinos e a armar uma milícia dirigida pelo homem forte do Fatah, Muhammad Dahlan, mas “os brutamontes de Dahlan se moveram cedo demais” e um ataque preventivo do Hamas solapou a tentativa de golpe. Isso levou os EUA e Israel a medidas mais duras, punindo a desobediência do povo de Gaza. A agenda partidária é mais aceitável. Consequências desastrosas para a populaçãoDepois que Israel rompeu o cessar-fogo em junho de 2008 (como o fez) em novembro, o cerco endureceu, com consequências ainda mais desastrosas para a população. De acordo com Sara Roy, a principal acadêmica especialista em Gaza, “Em 5 de novembro Israel fechou todos os pontos de passagem para Gaza, reduzindo largamente e eventualmente denegando suprimentos alimentares, remédios, combustíveis, gás de cozinha e o fornecimento de parte da água para os sistemas de saneamento...”. Ao longo de novembro, entre 4 e 6 caminhões com comida entraram em Gaza vindos de Israel, em comparação com 123 caminhões por dia, em Outubro. Peças sobressalentes para a reparação e manutenção de equipamentos relacionados ao uso da água tiveram sua entrada negada por mais de um ano. A Organização Mundial de Saúde acabou de reportar que metade das ambulâncias de Gaza estão agora fora de uso, quebradas” - e o resto brevemente se tornará alvo do ataque israelense. A única estação de energia de Gaza foi forçada a suspender operações por falta de combustível, e não podia ser ligada de novo porque precisava de peças, que estavam paradas no porto israelense de Ashdod há 8 meses. A escassez de eletricidade levou a um crescimento de 300% nos casos de queimadura no hospital Shifaa na Faixa de Gaza, como consequência dos esforços para acender fogos a lenha. Israel barrou o carregamento de cloro, então, pela metade de dezembro na cidade de Gaza e no norte o acesso à água estava limitado a seis horas em cada três dias. As consequências humanas não são contadas dentre as vítimas palestinas do terror israelense. Depois do ataque israelense de 4 de novembro, a violência de ambos os lados recrudesceu (sendo todos os mortos palestinos) até que o cessar-fogo formalmente chegasse ao fim em 19 de dezembro, e o Primeiro Ministro Olmert autorizasse a invasão em grande escala. Poucos dias antes o Hamas tinha proposto a retomada do acordo original do cessar-fogo de julho, que Israel não respeitou. O historiador e ex- assessor da administração Carter, Robert Pastor enviou a proposta ao “oficial sênior” no IDF, mas Israel não respondeu. O líder do Shin Bet, a agência de segurança interna de Israel, disse em 21 de dezembro, segundo fontes israelenses, que o Hamas está interessado em continuar em “calma” com Israel, enquanto seu braço militar se prepara continuamente para o conflito. “Havia claramente uma alternativa ao tratamento militar, para interromper os foguetes”, disse Pastor, referindo-se especificamente a Gaza. Também havia uma alternativa de largo alcance, a qual é raramente discutida, a saber, aceitar um acordo político que inclua todos os territórios ocupados. O experiente correspondente diplomático israelense, Akiva Eldar, informa que pouco antes de Israel lançar seu ataque de grande escala, em 27 de dezembro, o “dirigente do Hamas, Khaled Meshal, anunciou no site Iz al-Dinal-Qassam que estava preparado não apenas para 'o fim da agressão' – ele propunha que se retomasse o acordo de Rafah de 2005, antes do Hamas vencer as eleições e de tomar toda a região, mais tarde. Esse acordo previa que os pontos de passagem seriam dirigidos conjuntamente pelo Egito, a União Européia, a presidência da Autoridade Palestina e o Hamas” e, como se disse antes, pedia a abertura das vias de acesso para a entrada de suprimentos desesperadamente necessitados. Uma afirmação standard dos apologistas mais vulgares da violência israelense é que, no caso deste ataque mais recente, “assim como em muitos outros ao longo da metade do século passado – a Guerra do Líbano em 1982, a resposta com “mão de ferro” à Intifada de 1988, a guerra do Líbano de 2006 – os israelenses têm reagido com intoleráveis atos de terror, com determinação de infligir dor, para ensinar uma lição ao inimigo” (David Remnick, editor da New Yorker). A invasão de 2006 pode ser justificada apenas com base num cinismo estarrecedor, como já se discutiu. A referência à resposta viciosa à segunda intifada é depravada demais para ser discutida; uma interpretação simpática pode ser que se trata de uma ignorância assombrosa. Mas a afirmação de Reminick a respeito da invasão de 1982 é bastante comum, uma notável proeza de propaganda incessante, que merece alguns lembretes.É fato que a fronteira de Israel com o Líbano esteve quieta por um ano antes da invasão israelense, ao menos no sentido Líbano-Israel, do norte ao sul. Ao longo do ano, a OLP observou escrupulosamente um cessar-fogo de iniciativa norte-americana, a despeito das constantes provocações israelenses, inclusive bombardeando, com várias perdas civis, supostamente visando a obter alguma reação que poderia ser usada para Israel justificar uma invasão cuidadosamente planejada. O melhor que Israel pôde ter foram duas leves respostas simbólicas. Então, invadiu com um pretexto absurdo demais para ser levado a sério. A invasão não teve precisamente nada a ver com “intoleráveis atos de terror”, ainda que tenha tido com intoleráveis atos: de diplomacia. Isso jamais foi obscuro. Pouco depois da invasão apoiada pelos EUA começar, o importante especialista israelense em palestinos, Yehoshua Porath – não uma pomba pacifista – escreveu que o sucesso de Arafat em manter o cessar-fogo constituía “uma verdadeira catástrofe aos olhos do governo israelense”, uma vez que abria o caminho para um acordo político. O governo esperava que a OLP partisse para o terrorismo, minando assim a ameaça que seria “uma parceria legítima negociada para futuras acomodações”. "Nós removemos o perigo político ao atacar primeiro. Agora, graças a Deus, não há com quem conversar"Os fatos estavam muito claros em Israel, não escondidos. O Primeiro Ministro Yitzhak Shamir disse que Israel entrou na guerra porque havia um “perigo terrível...Não tanto militar, como político”, levando o excelente humorista B. Michael a escrever que “a desculpa esfarrapada de um perigo militar ou um perigo para a Galiléia está morta”. Nós “removemos o perigo político” ao atacar primeiro, a tempo; agora, “graças a Deus, não há com quem conversar”. O historiador Benny Morris reconhece que a OLP tinha observado o cessar-fogo, e explicou que “a inevitabilidade das guerras está na OLP como uma ameaça política a Israel e em Israel manter os territórios ocupados”. Outros, ainda, reconheceram esses fatos incontestáveis. Na primeira página do NYT constava um artigo relativo à mais recente invasão de Gaza, do correspondente Steven Lee Meyers, dizendo que “em alguns aspectos, os ataques sobre Gaza foram reminiscentes dos riscos que Israel assumiu, e em larga medida perdeu, no Líbano em 1982 [quando] invadiu para eliminar a ameaça das forças de Arafat”. Correto, mas não no sentido que tinha em mente. Em 1982, como em 2008, era necessário eliminar a ameaça de um acordo político. A esperança dos propagandistas israelenses tem sido a de que os intelectuais do ocidente e a mídia comprariam o conto de que Israel reagiu a ataques de foguetes na Galiléia, esses “atos intoleráveis de terror”. E eles não têm se decepcionado. Não é que Israel não queira a paz: todo mundo quer a paz, até Hitler. A questão é: em que termos? Desde sua origem, o movimento sionista foi concebido para atingir objetivos, sendo a melhor estratégia o adiamento dos acordos políticos, enquanto, vagarosamente, fatos iam sendo consumados. Mesmo os acordos ocasionais, como em 1947, foram reconhecidos por suas lideranças como sendo passos provisórios para a expansão futura. A guerra de 1982 no Líbano foi um exemplo dramático do medo desesperado da diplomacia. Dela se seguiu o apoio de Israel ao Hamas, para solapar a secular OLP e suas iniciativas irritantes de paz. Outro caso que deveria ser familiar são as provocações israelenses antes da guerra de 1967 pensadas para eliminar a resposta da Síria que poderia ser usada como pretexto para violência e a tomada de mais terras – ao menos 80% dos incidentes, de acordo com o Ministro da Defesa Moshe Dayan. A história remonta há muito. A história oficial do Haganah, a força militar judaica pré-estatal, descreve o assassinato do poeta judeu Jacob de Haan em 1924, acusado de conspirar com a comunidade judaica tradicional (o velho Yishuv) e com o Alto Comissariado Árabe contra os novos imigrantes e seus assentamentos. E tem havido exemplos numerosos desde então. Os esforços para procrastinar arranjos políticos sempre têm feito perfeito sentido, bem como as mentiras que lhes vem acompanhadas, a respeito de que “não há parceiro para a paz”. É difícil pensar em outra maneira de roubar terras em que não se é querido. Expansão, no lugar de segurançaRazões similares sustentam a preferência de Israel pela expansão, no lugar da segurança. Sua violação do cessar-fogo de 4 de novembro de 2008 é um dentre muitos exemplos recentes. Uma cronologia da Anistia Internacional informa que em junho de 2008 o cessar-fogo tinha trazido “melhorias enormes na qualidade de vida em Sderot e em outras cidades israelenses perto de Gaza, onde, antes do cessar-fogo os residentes viviam com medo do ataque do próximo foguete palestino. Contudo, perto da Faixa de Gaza o bloqueio israelense permanece a postos e a população até agora tem visto poucas vantagens no cessar-fogo”. Mas os ganhos em segurança para as cidades próximas a Gaza foram evidentemente superados pela necessidade sentida de dissuadir os movimentos diplomáticos que podem impedir a expansão na Cisjordânia, e esmagar a resistência que ainda há dentro da Palestina. A preferência pela expansão em lugar da segurança tem sido evidente desde a decisão fatal de Israel, em 1971, bancada por Henry Kissinger, de rejeitar a oferta de um acordo total de paz apresentado pelo Presidente Sadat, do Egito, oferecendo nada aos palestinos – um acordo que os EUA e Israel estavam compelidos a aceitar em Camp David oito anos depois, depois da maior guerra que foi um desastre para Israel. Um tratado de paz como o Egito teria posto um fim em qualquer ameaça à segurança, mas nele havia um inaceitável quid pro quo: Israel teria de abandonar seus programas extensivos de assentamento no nordeste do Sinai. A segurança era uma prioridade mais baixa que a expansão, e ainda é. A evidência substancial dessa conclusão básica é oferecida no estudo magistral da política externa e de segurança de Israel, o “Defending the Holy Land” [Defendendo a Terra Sagrada], de Zeev Maoz. Hoje, Israel poderia ter segurança, a normalização das relações, uma integração na região. Mas muito claramente prefere a expansão ilegal, o conflito e o exercício repetido da violência, em ações que são não apenas criminosas, assassinas e destrutivas, mas que também corroem sua própria segurança a longo prazo. O especialista militar e no Oriente Médio, Andrew Cordesman, escreve que enquanto a força militar de Israel pode esmagar com segurança os habitantes indefesos de Gaza, “nem Israel nem os EUA podem ganhar com uma guerra que produz uma reação [amarga] de uma das mais sábias e moderadas vozes no Mundo Árabe, o Príncipe Turki al-Faisal da Arábia Saudita, que disse em 6 de janeiro que “a administração Bush deixou [para a Obama] um legado desagradável e uma posição temerária em relação aos massacres e ao derramamento de sangue de inocentes em Gaza...Chega é chega, hoje somos todos palestinos e buscamos o martírio, por Deus e pela Palestina, seguindo aqueles que morreram em Gaza”. Um crime contra o Estado de IsraelUri Avnery, uma das mais sábias vozes em Israel, escreve que, depois de uma vitória militar israelense, “o que ficará marcado na consciência do mundo será a imagem de Israel como um monstro manchado de sangue, pronto para, a qualquer momento cometer crimes de guerra e não preparado para obedecer a quaisquer limites morais. Isso terá consequências graves para nosso futuro no longo prazo, para nossa estada no mundo, para nossa chance de conseguir paz e sossego. No fim, essa guerra é um crime contra nós mesmos, também, um crime contra o Estado de Israel”. Há uma boa razão para acreditar que ele está certo. Israel está deliberadamente se tornando talvez o país mais odiado do mundo e também vem perdendo o apoio da população ocidental, inclusive dos judeus americanos jovens, que dificilmente tolerarão esses crimes chocantes por muito tempo. Décadas atrás, eu escrevi que aqueles que chamam a si de “apoiadores de Israel” são na realidade apoiadores de sua degeneração moral e, por último, de sua provável destruição. Lamentavelmente, esse juízo parece cada vez mais plausível. Enquanto isso, observamos calmamente um evento raro na história, que o velho sociólogo israelense, Baruch Kimmerling, chamou de “politicídio”, o assassinato de uma nação – em nossas mãos. Noam Chomsky é Professor Emérito no Massachussetts Institute of Technology MITTradução: Katarina Peixoto

Para refletir:

Para viver, sinta, sonhe e ame.
Não deseje apenas coisas materiais.
Deseje o bem e multiplique as boas ações.
Sorria, sim. Mas ame mais.

Ame a si, aos outros, a quem está próximo e distante.
Ame quem errou e quem acertou.
Não diferencie.

O amor não julga. O amor não pune. O amor aceita.
Pense nisso e aceite a vida.

Vamos brincar com as palavras?



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