Entrei no curso de direito no mesmo ano da redemocratização, quando Tancredo deveria tomar posse como presidente após 21 anos de longa ditadura civil-militar.
A redemocratização era odiada pela ala mais à direita da ditadura, a mesma que poucos anos atrás esteve ao lado do ex-presidente Bolsonaro. E em consequência disso, contra a redemocratização, acreditou-se que o incêndio do TUCA, Teatro da PUC, em 1985, teria sido obra dessa ala radical.
Me formei em 1989, mesmo ano da queda do muro de Berlim, um ano após a aprovação da nossa Constituição Federal e 2 anos antes da fragmentação da então União Soviética. Eram momentos apenas efervescentes, sem muita profundidade, na política e economia.
Àquela época, o Estado brasileiro era forte, ditava regras, algumas excessivas, como o congelamento geral de preços. Hoje, o poder executivo, em especial o federal, é fraco e vivencia 3 golpes.
Um do Congresso, que detém, como manobra eleitoreira, grande parte do orçamento próprio do executivo, limitando inconstitucionalmente um dos Poderes da República.
Outro golpe é no judiciário, que muitas vezes adentra no juízo do mérito da conveniência para a administração, cabendo-lhe, no entanto, apenas e tão somente a verificação por meio da percepção do respeito a princípios Constitucionais-Administrativos.
O último, ainda mais cruel, é o autogolpe aplicado pelos próprios chefes do Executivo ao adotarem políticas ultrapassadas neoliberais, que cedem à iniciativa privada, em especial ao sistema financeiro, grande parte das atividades, dos bens e dos recursos públicos.
O Estado mínimo já é uma realidade. O pouco que o administrador pode fazer é tentar ditar ou uma política de viés social, com políticas públicas superficiais para tanto, ou neoliberais, diminuindo profundamente cada vez mais o poder do Estado.
No meio de tudo isso está a economia. Sem um planejamento estratégico feito pelo Estado, este fica refém da desorganização produtiva interna, da falta de investimento em tecnologias e passa a importar bens caros e a exportar produtos agrícolas ou manufaturados de baixo valor. O Estado não está mais a serviço do crescimento econômico e da defesa da Nação. Torna-se um zelador da área ocupada pelo Brasil, para permissão da exploração pelas grandes potências imperialistas. Nossa soberania passa a ser ficção.
O direito, forçando interpretações, avaliza o neoliberalismo e modifica "per si" a estrutura da Constituição da República, a antiga constituição cidadã.
Os militares passam a alegrar-se em comprar itens básicos de defesa do exterior.
Os políticos conformam-se em ver o Brasil reduzido a uma enorme fazenda arrendada por forças imperiais.
O povo, sem esclarecimento, se perde em meio ao entreguismo, e sem incentivo à cultura nacional, acredita que o carnaval é o que nos identifica como Nação, sendo na verdade, e dói um pouco dizer isso, reflexo da política do pão e circo.
O que nos identifica como Nação é a consciência de nosso tamanho, de nossas riquezas e das raízes de nosso povo. É a consciência de quem fomos e de quem somos
Acreditando que somos pequenos, corruptos e incapazes, o povo se deixa seduzir pelos entreguistas oportunistas. E assim caminhamos para o desmantelamento do nosso ainda enorme (em território, riquezas e potencial) Brasil.
