E O BRASIL?
O neoliberalismo muito alguns poucos e permitiu a devastação de muitos com a miséria e a degradação financeira, social e moral.
Os Estados Unidos se afastam do neoliberalismo que ajudaram a criar e a sedimentar pelo mundo afora. Em seu lugar adotam um nacionalismo intervencionista através de um governo absolutamente totalitário.
O Brasil, por pressão estadunidense, adota o neoliberalismo desde a década de 1990, ainda no governo Collor. Com isso adveio a desindustrialização brutal e a perda de empregos mais qualificados. Collor foi um desastre para a economia, mas parece que o Brasil ainda não descobriu isso. Alguns governos brasileiros foram mais neoliberais, como Collor, Fernando Henrique, Temer e Bolsonaro. Outros governantes foram um pouco menos, como Lula. A ex-presidente Dilma é a que mais tentou se afastastar dessa doença do neoliberalismo, adotando uma política nacional desenvolvimentista, e foi alvo de difamação, espionagem estadunidense e de uma revolução colorida que culminou com o seu impeachment sem uma causa jurídicamente permitida para o afastamento. Ela foi vítima por ser mulher, por ser nacionalista e por ser herdeira da política econômica adotada por Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Ernesto Geisel, que permitiram que o Brasil crescesse como ninguém de 1930 a 1980.
A extrema direita que cresce a cada dia no continente americano, na europa, e nos países mais ao oriente e ocidentalizados, como Japão, Coreia do Sul, Filipinas, Israel, Austrália e Nova Zelândia, nada mais é do que fruto direto do neoliberalismo. Herdeira do fascismo, a extrema direita atual também é fruto do capitalismo, da crise econômica e da sede colonialista e imperialista que ainda domina os ditos países do ocidente estendido.
Trump já dava sinal do autoritarismo em seu primeiro mandato. Nesse segundo ele perdeu qualquer vergonha e medo e adota políticas autoritárias sem que o Poder Judiciário ou o Poder Legislativo consigam freá-lo. Sua política externa não é muito diferente da adotada pelos políticos que sucedeu, mas é mais violenta na forma e na fala. Destituiu o presidente da Síria em minutos, assim como o fez com Maduro na Venezuela. Porém, não resolveu o problema na Síria nem no nosso vizinho sul americano. Como sempre, os Estados Unidos não resolvem problemas, mas os criam desnecessariamente.
Embora tenha sustentado que não promoveria novas guerras, para conseguir o que quer ele ameaça e extorque, utilizando sua forças armadas para tanto. Foi o que fez na Venezuela e é o que tenta fazer com a Dinamarca e o Irã.
Os europeus se sentem descartados não só na guerra Russo-ucraniana, mas também pela pretensão de Trump de incorporar para si a enorme ilha da Groenlândia.
Com medo do isolamento, os europeus rapidamente aprovaram o acordo econômico com o Mercosul, numa parceria de mais de 700 milhões de pessoas. Essa parceria é ótima para a indústria europeia e para o agronegócio brasileiro, mas péssima, absolutamente catastrófica, para a já sufocada indústria brasileira.
Como ainda demorará anos para a implantação do acordo econômico, cabe ao governo brasileiro, nesse meio tempo, redefinir rumos, estratégias e fortalecimento para o setor industrial, de preferência envolvendo universidades e escolas técnicas para o desenvolvimento de novas tecnologias e descobertas industriais. No meu ponto de vista, isso deveria ser absolutamente prioritário, desde já, inclusive com proteção constitucional.
O Brasil, ao mesmo tempo que se liga ao bloco europeu, também está conectado aos países do sul global no BRICS, o que é excelente para uma política econômica e diplomática pragmática, de resultados. Sem se vincular a um bloco, o Brasil consegue se relacionar com todos, comercializando e dialogando.
Em um mundo cada vez mais agressivo, da lei do mais forte, os países tendem a investir em armamentos, e o Brasil não pode ficar de fora, a fim de preservar seus interesses e sua soberania. Com poucos recursos, e com risco de sanções pelo lado ocidental, ao Brasil não convém comprar armamentos do bloco ocidental, e tampouco da Rússia ou China. Ao Brasil cabe desenvolver uma indústria armamentista nacional capaz de produzir mísseis, drones, veículos de transporte, tanques, navios e submarinos baratos e eficientes. Caso não consiga desenvolver tão rapidamente per si, deverá fazer parcerias com países do sul global, como Indonésia, México, África do Sul e Índia, com transferência de tecnologia. O que não pode haver é a dependência de tecnologia de países com interesses diametralmente diversos.
Os Estados Unidos, Israel e Rússia estão em conflitos armados. Outros países se envolvem direta ou indiretamente. Europa, Ásia, África e América do Sul são alvos de guerras. A guerra está cada vez mais próxima do Brasil.
A falta de diálogo, hoje, é um prenúncio do aumento de conflitos e de formação de blocos, até como forma de proteção dos países.
O mundo está se dividindo em dois ou três blocos. Os Estados Unidos se isolam cada vez mais, inclusive se afastando de parceiros ocidentais como a Coreia do Sul e os países europeus, estes últimos sempre vassalos, sedentos por ganhar com o imperialismo e o neocolonialismo que os Estados Unidos possam permitir.
A questão da Groenlândia e a sua solução indicará o destino dos europeus, se ao lado dos estadunidenses, se isolados ou se mais próximos da China. a Grã-Bretanha deve ser a exceção e permanecer fiel aos Estados Unidos.
Japão, Grã-Bretanha, Austrália, Filipinas, Israel, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Azerbaijão, Armênia e Nova Zelândia tendem a seguir os Estados Unidos.
Ao lado da China devem estar a Rússia, Paquistão, Irã, Coreia do Norte, Cuba, Iraque e muitos países africanos e asiáticos.
Ao Brasil seria conveniente a formação de um terceiro bloco, aberto ao diálogo entre os dois primeiros, e assumir a liderança, ao lado da Índia, África do Sul, Indonésia, México, Argélia, Uruguai, alguns países africanos e do sudeste asiático.
A Coreia do Sul se aproxima rapidamente da China. Não se sabe, porém, qual destino adotarão Arábia Saudita, Egito, Catar, Bahrein.
Os blocos começam a permitir a sua visualização.
Ao Brasil caberá garantir a liberdade de navegação no Atlântico Sul, ao lado da África do Sul. Para isso se faz urgente a fabricação de, ao menos, mais de uma dezena de submarinos de propulsão nuclear.
Também não se pode tergiversar sobre a questão nuclear. Ou ela deve ser proibida para todos ou, na hipótese contrária, deverá o Brasil estudar a possibilidade de produzir armamentos nucleares e meios adequados para a sua utilização. O Brasil não pode movimentar peças olhando para o passado, mas sim para o futuro, tentando defender suas riquezas, sua soberania e o seu povo.
A hipocrisia deveria ficar restrita à cobertura jornalística do passado. A transparência e a verdade, hoje, deveriam ser o objetivo. Os brasileiros têm o direito de saber o que acontece, de fato, no mundo econômico e geopolítico atual, e também discutir todas as alternativas existentes para o Brasil.
Cyro Saadeh é advogado público, jornalista, documentarista, escritor e apresentador do programa Vamos Falar de Geopolítica no Canal VAMOS TV, no YouTube.