sexta-feira, 4 de junho de 2010

SÃO CARLOS, A CAPITAL DA INOVAÇÃO

por LUIZ ANTONIO CINTRA

foto: CARTA CAPITAL/Olga Vlahou
O negócio começou de uma conversa na sala da república. Àquela altura, em meados de 2003, os três estudantes e futuros sócios passavam o dia de jaleco branco, ocupados com os seus doutorados nos laboratórios de química da região de São Carlos, a 233 quilômetros da capital paulista. Gustavo Simões, André Araújo e Daniel Minozzi gastavam neurônios esmiuçando as possibilidades de aplicação da nanotecnologia, o ramo da biotecnologia capaz de alterar as moléculas das substâncias e modificar o seu comportamento – estruturas 1 milhão de vezes menor que o milímetro, um brinquedo recente dos pesquisadores de ponta.

“Percebemos que as nossas pesquisas poderiam dar lucro”, recorda Simões, um dos “sócios-empreendedores” da Nanox S.A., fundada em 2005, logo após a defesa dos respectivos doutorados. “No laboratório onde trabalhávamos, dava-se muita atenção à pesquisa aplicada, não apenas à ciência básica. E decidimos investir na aplicação da nanotecnologia à prata, cujo princípio antimicrobiano é conhecido há séculos.” Registrado o produto e batizado com um nome comercial, o Nanox Clean levará a empresa a faturar 3 milhões de reais neste ano, estimam Simões e os sócios, todos nascidos na região e na faixa dos 30 anos.

Uma boa parcela do faturamento virá da utilização do produto como revestimento em cubas de filtros de água ou na saída de ar de secadores de cabelo. “As utilizações possíveis são muitas, do motorzinho do dentista a geladeiras, sistemas de ar condicionado e embalagens. Um pão de forma, que normalmente dura uma semana na geladeira, pode durar até 20 dias em um recipiente revestido.”

A trajetória da Nanox seguiu o modelo de outras empresas de alta tecnologia surgidas na pacata São Carlos, quase sempre desdobramentos de grupos de pesquisa da USP, na Universidade Federal de São Carlos ou nos dois centros de pesquisa que a Embrapa mantém na cidade, ambos com foco na exploração das fronteiras científicas. Com pouco mais de 220 mil habitantes e crescimento demográfico anual de 1,9%, o dobro da média estadual, a cidade se orgulha de ocupar o primeiro lugar no ranking das cidades com mais doutores “por metro quadrado” – 1 a cada 200 habitantes, de possuir dois parques tecnológicos reconhecidos pelo governo paulista (um terceiro, lançado pela iniciativa privada, está em fase de construção) e de ter mais de 150 empresas de base tecnológica em atividade.

“Aqui há uma sinergia muito grande entre as universidades e os empreendedores, o que justifica o fato de São Carlos ser a capital do spin-off, como é chamada a saída do pesquisador que decide abrir a sua empresa”, diz Targino de Araújo Filho, reitor da UFSCar. “Incentivamos esse transbordamento das universidades, ainda que sempre tenhamos como foco ampliar o conhecimento.”
A vocação tecnológica remonta à década de 1950, quando surgiu o primeiro curso da USP na cidade. Como se tratava de um curso novo, a engenharia de materiais, não foram poucos na comunidade científica a criticar a iniciativa, defendendo as carreiras tradicionais. Ironia do destino, é justamente de lá, das pesquisas com cerâmicas e polímeros, que tem saído o maior número de patentes e linhas de pesquisa promissoras, como a de nanotecnologia.
Para deixar o jaleco e vestir uma camisa social, o pontapé inicial costuma vir pelo apoio da Fapesp, fundação do governo estadual, ou do Finep, fundo ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia.

No caso da Nanox, a injeção de recursos das agências de financiamento somou 7 milhões de reais nos últimos anos em vários editais vencidos. Com esses recursos, a empresa conseguiu se organizar administrativamente, comprar equipamentos, contratar funcionários (hoje são 16) e atrair um fundo de investimentos. Também teve o apoio do Sebrae na área de design e construção de imagem. “Temos quatro patentes registradas, e a expectativa de faturar 150 milhões de reais em sete anos”, resume Simões.
Graduado em ciência da computação e doutorado na Poli-USP, José Pacheco e outros dois professores tiveram a ideia de mudar o rumo de suas carreiras após participar, em 2004, de um congresso nos Estados Unidos sobre robótica, sua paixão científica há mais de uma década. Hoje à frente da PETe e da PNCA Robótica e Eletrônica, vende robôs capazes de estimular a curiosidade científica das crianças e material de apoio para os professores. Fechou 2009 com 40 mil alunos usuários dos kits.
“Quando o negócio ficou sério, um dos sócios abandonou o barco e voltou para a universidade. Aqui na empresa a gente gasta muito tempo em tarefas repetitivas, procurando meios de cortar custos, o que nem sempre é empolgante. Mas assumir que não tínhamos perfil para administrar foi fundamental”, diz Pacheco, sentado ao lado do “reforço” que se incorporou ao grupo, um jovem administrador de empresas de São Paulo, Jaques Weltman.
“O que justifica estar em São Carlos é a qualidade da mão de obra. Basta colocar um cartaz nas duas universidades e logo aparece um candidato com qualificação”, diz Weltman, a quem coube visitar em fevereiro a maior feira de brinquedos do mundo, na Alemanha, em busca de novos negócios. “Cheguei à feira carregando uma mochila com os nossos kits e material promocional, na raça. E descobri que o nosso projeto está em pé de igualdade com o que se faz no mundo, o problema é com o produto. Na China, ele sairia pela metade do preço”, diz.
Trata-se então do Vale do Silício brasileiro, a região da Califórnia que concentra as principais empresas de tecnologia dos EUA? Ainda falta chão, avaliam os empresários, a começar por uma melhor estrutura de transporte e mais investidores capitalistas dispostos a correr riscos. Um aeroporto que encurte a distância da cidade com São Paulo e outros mercados consumidores seria muito bem-vindo ou um trem de alta velocidade. E investidores capazes de entender como funciona uma pequena empresa.
Com vários prêmios acumulados em sua curta existência, a Rocambole Produções surgiu do trabalho de conclusão de estudantes do curso de Imagem e Som da UFSCar, em 2003. Diego Doimo, Tiago Mal, Eduardo Perdido e Ana Luiza Pereira, juntos desde a graduação, ainda conservam o jeitão universitário, a começar pelos apelidos que viraram “nome artístico”. Mas não estão para brincadeira. Conseguiram ganhar dois editais – um do governo paulista e outro da Petrobras – com uma verba total de 1,2 milhão de reais para realizar o primeiro longa-metragem da produtora, em fase de captação de recursos. “Encarar os departamentos de marketing das grandes empresas não é fácil”, diz Diego Doimo, que assinará a direção do longa. “As ‘empresonas’ preferem atores de novela, não sabem da importância das animações para a construção do imaginário infantil.”
Não é apenas o número relativo de doutores que chama atenção em São Carlos. A cidade também conta com uma administração municipal que foge à regra. O atual prefeito, Osvaldo Barba, sucedeu o também petista Newton Lima, eleito em 2000 e reeleito em 2004. Ambos possuem uma longa carreira acadêmica e foram reitores da UFSCar.
“Do tratamento do esgoto ao mapeamento da pobreza, tivemos 150 projetos saídos das universidades e centros de pesquisa. Rompemos com o divórcio que havia. E em um ano a cidade terá um hospital exemplar que funcionará como uma espécie de show-room dos equipamentos médicos, muitos produzidos por empresas da região, uma área em que o Brasil possui um déficit enorme”, diz Lima.

Na área médica, o maior destaque da cidade é a Opto, empresa criada por ex-professores da USP que também seguiu o “modelo de São Carlos”. Seu faturamento anual é de aproximadamente 100 milhões de reais com fábricas de instrumentos ópticos no Brasil, nos EUA e na Austrália. Entre os feitos da empresa, está a vitória na concorrência para criar lentes dos satélites que o Brasil constrói em parceria com a China.

A próxima geração de empresas, avalia Lima, deverá ter como foco as indústrias de aeronáutica surgidas na região, na esteira da planta da Embraer em Gavião Peixoto, a 40 quilômetros da cidade, que conta ainda com uma oficina de manutenção da TAM e um museu da aviação, a ser reaberto no dia 12 de junho após ampla reforma.

Também na agricultura a cidade se destaca. A Embrapa Instrumentação Agropecuária coordena duas redes nacionais de pesquisa, uma delas de nanotecnologia aplicada, além de ter gerado inúmeras empresas filhotes. “Desenvolvemos estudos e soluções tecnológicas ligadas à agricultura de precisão, aproveitando a mão de obra da região. São Carlos tem tudo para ser um centro de inovação na agricultura”, diz Silvio Crestana, ex-presidente da Embrapa e pesquisador na unidade local.

Alegrias à parte, São Carlos amarga revezes. O mais recente foi o adiamento de um projeto de algumas centenas de milhões de dólares de uma fábrica de semicondutores, a primeira do gênero na América Latina. Projeto da norte-americana Symetrix, criada pelo engenheiro brasileiro Carlos Araújo, professor da Universidade do Colorado há décadas, a unidade “subiu no telhado” após o início da crise nos EUA.

Para refletir:

Para viver, sinta, sonhe e ame.
Não deseje apenas coisas materiais.
Deseje o bem e multiplique as boas ações.
Sorria, sim. Mas ame mais.

Ame a si, aos outros, a quem está próximo e distante.
Ame quem errou e quem acertou.
Não diferencie.

O amor não julga. O amor não pune. O amor aceita.
Pense nisso e aceite a vida.

Vamos brincar com as palavras?



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