A CHAMA

A chama

(do jovem LEONARDO BEZERRA)


Manhã gelada de Maio,
onde o vento corta
qualquer sorriso frio.
Ali no carro
embaixo do farol
vi um fogo na esquina.
Pequeno e humilde
como seu dono,
o mendigo.

Roupas rasgadas,
nem mesmo esbranquiçadas,
bem amareladas.
Mas ele não ligava,
o fogo o aquietava.
Mais atrás,
atrás do fogo
um carrinho de papelão
onde se podiam escrever
todas as vidas daquele mundo.
Então daquelas folhas de mundo
rasgava um ou dois segredos,
e os oferecia ao fogo.
O seu trabalho
( pelo menos um pouco )
iluminava e o esquentava,
mas nunca gelava .
Sorria pelo acalento
e eu chorava pelo desapontamento.
Ele,
sujo
maltrapilho
e fedido
Eu,
limpo
arrumado
e cheiroso
Não era nem metade dele,
pois ele tinha tudo.
Agora o farol é verde,
então
ele fica
e eu vou.
A última coisa que vi
foi um sorriso
desafiando a manhã fria.

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