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Sou testemunha ocular das mudanças proporcionadas pelo Bolsa Família. Confesso que demorei a entender. Foi algo surreal. Inclusive mencionei aqui como a cidade que eu havia visitado 9 anos antes estava totalmente modificada.
Embora o benefício social do Bolsa Família seja alvo de críticas por pessoas que acreditam que se a pessoa tiver vontade vencerá na vida, há circunstâncias estruturais, pessoais e sociais que podem dificultar ou até impossibilitar isso. Por isso o Estado não pode trabalhar com insensibilidades, mas ser capaz de resolver os problemas das pessoas ou ao menos minimizar o drama, e é justamente para diminuir o sofrimento de muitos que existe o Bolsa Família.
Embora possa haver alguns pequenos erros em sua concessão, ele se constitui em um programa excepcional, reconhecido internacionalmente como uma medida eficaz de combate à pobreza, sendo capaz de fazer circular o dinheiro nas pequenas cidades.
Bem, já tendo feito a introdução, vou contar brevemente a minha experiência.
Em 1998/1999 fiz minha primeira visita à região da cidade de Canudos, local da famosa Guerra de Canudos, retratada no livro "Os Sertões", de Euclydes da Cunha. Era uma cidade muito pobre, onde as pouquíssimas padarias só tinham pão de leite e tubaína, nada mais. Os restaurantes eram muitíssimo simples, lembrando os bares simples de bairros muito pobres da região metropolitana de São Paulo. Não consegui encontrar hotel e as pessoas tinham uma aparência envelhecida, por causa do sol. Eram inúmeras as crianças trabalhando, normalmente vendendo sorvetes.
Em 2005 eu retornei à região, para fazer o documentário "Cororobó, o Açude que inundou Canudos". Fiquei apaixonado pela Caatinga, uma região seca e que aparentaria ser feia para quem não a conhece, mas que é lindíssima com suas flores a depender da época e a sua beleza sempre peculiar. Não faltavam jegues próximos da caatinga e na cidade que não tinha mudado muito. Conheci muitas pessoas e vi muita pobreza. Uma senhora entrevistada que tinha um comércio há longo tempo, tinha o seu comércio feito de madeira, de tão pobre. Aquilo foi marcante para mim. O rosto dela era marcado pelo tempo, como quase todo sertanejo à época. Um menino de 13 anos, que aparentava ter mais de 20, com um rosto envelhecido, me pediu uma bicicleta. Fiquei comovido com a aparência envelhecida dele. O bolsa família, criado no final de 2003, e que estava em estágio inicial, havia acabado de ser implementado e ainda não havia surtido o efeito transformados que constataria na viagem seguinte.
Em 2014 eu voltei à região e não a reconheci. O que vi estava quase totalmente alterado. A cidade já tinha hoteis e as padarias lembravam as boas "padocas" de bairros de classe média-média de São Paulo. Comi uma coxinha deliciosa e o pão francês foi o melhor que já pude experimentar. Ele conseguiu ser melhor que os das melhores padarias de São Paulo. Não vi crianças vendendo sorvetes e os jegues foram substituídos pelas motocicletas, que lotavam as ruas e praças. Fui conversar com aquela senhora de rosto marcado e não a reconheci. Ela havia rejuvenescido uns 20 anos, o seu comércio não era mais de tábuas de madeira, mas de concreto e havia quintuplicado de tamanho, contando com um chuveiro. O que havia revelado no documentário estava totalmente diferente. Era uma outra cidade. O motivo disso é a circulação de dinheiro que o Bolsa Família proporciona. O pobre que ganha um bolsa família passa a conseguir comprar um pão, um maço de cigarro, um iogurte e vai comprar no mercado, na padaria e o comércio vende mais e cresce. Pude constatar, "in loco", que o bolsa família, assim, serve como motor de crescimento das pequenas cidades. Beneficia a pessoa e sua família, o comércio local e a prefeitura que vê circular dinheiro e o aumento de arrecadação tributária.
Para um país cheio de diferenças e injustiças, o bolsa família é uma necessidade para minimizar a miséria a que muitos estão condicionados por fatores pessoais, circunstanciais e estruturais. Com esse benefício social o Estado, de uma só vez, minimiza o sofrimento da pessoa que sobrevive na miséria e consegue movimentar a economia local, levando prosperidade à comunidade.
É óbvio que apenas o Bolsa Família não resolverá todos os problemas, mas é uma solução inteligente, eficaz e mais barata que as isenções fiscais. Em 2025, a União gastou 160 bilhões com o Bolsa Família e deixou de arrecadar entre 830 e 900 bilhões em renúncias fiscais, dos quais 618 bilhões foram sem qualquer contrapartida social. E quais são os benefícios diretos das isenções fiscais? Aumento dos lucros das grandes empresas?

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