Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

O Partido Missão, que não é de missionários, muito pelo contrário, e que utiliza o mesmo número daquele que já foi um grande e importante partido na história brasileira, o PTB - Partido Trabalhista Brasileiro, de Getúlio Vargas e João Goulart, atentou contra a Constituição Federal em um ato proposital diante da Faculdade de Direito da USP, a conhecida e prestigiada Faculdade do Largo de São Francisco.

Acostumados com os algoritmos da internet, que prestigiam a polêmica e o absurdo, sempre procurando mais visualizações, os integrantes do MBL - Movimento Brasil Livre se reuniram diante do Largo de São Francisco para atacar o direito mais sagrado não só diante das religiões, mas da Constituição Federal, o da vida.

O integrante do Missão, que certamente não é nenhum Missionário na acepção correta do termo, e que é candidato à Presidência da República, Renan Santos, utilizou a única coisa que a extrema direita saber fazer diante dos números da criminalidade que assola as cidades, estados e o país, a verborragia, falando o que é óbvio que não deveria ser falado diante de um público e pouco menos diante de graduandos de direito. Renan Santos conseguiu, em um único discurso, ser o candidato mais anticivilizatório e pró barbárie.

Para começar, se você quer resolver o problema da Segurança Pública, deve falar menos e agir silenciosamente com toda a inteligência, tudo o que a extrema direita não sabe fazer. São as ações de inteligência que permitem mapear toda a rede criminosa, seja dos mandantes, dos efetivos autores criminosos, dos receptores, financiadores e coautores. É a inteligência que põe fim, de fato, à atividade criminosa. Ações de marketing de mau gosto apenas servem para por "fim", literalmente, a um criminoso, que pode ser substituído, e não a toda a rede de criminosos e ao crime, que é o que importa para a segurança da população. Deveria ele seguir o bom exemplo da Polícia Federal brasileira e de várias Polícias Civis dos Estados, mas opta por seguir o caminho errado das criminosas milícias.

Segurança pública não é coisa para amador. É para quem estuda, para quem tem vontade de trabalhar para e pelo povo, e para quem se coloca, sim, no lugar das vítimas, mas com inteligência, e não com falas anticivilizatórias capazes de agradar apenas a apoiadores e a um ou outro desavisado.

As ações de segurança pública exigem, para começar, seriedade, compromisso e vontade. A população espera soluções realmente eficientes e não palavras deficientes que eternizem o problema e que só servem para agravar ainda mais o complexo problema da violência das grandes metrópoles.

Pelo discurso desastroso ele poderá vir a responder civil e criminalmente, além de estar sujeito a processo específico na Justiça Eleitoral. É o mínimo que se espera para quem atenta contra a civilização e os direitos humanos.

O Blogueiro.

Leia abaixo o texto publicado pela Agência Pública. Se preferir, clique aqui e leia a matéria diretamente no site da Agência Pública.




Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Por Gabriel Barros

“Nós vamos tingir o chão de vermelho com o sangue desses vagabundos”. A fala é do candidato à Presidência da República Renan Santos (Missão) durante o ato de lançamento de sua campanha neste domingo, 16 de agosto, no Largo de São Francisco, em frente à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Os vagabundos, a que Renan se refere, seriam as lideranças do PCC e do Comando Vermelho, que fugiram do país já que a política que o candidato apresenta é bastante direta: “serem presos ou mortos”.

As sucessivas palavras de ordem e frases de efeito no discurso do candidato, que vestia um colete a prova de balas, eram intercaladas com gritos em coro dos militantes da Missão, que repetiam o lema do partido “prendeu, matou”.

O discurso belicista que prega, segundo o próprio candidato, contrasta com o local do evento: uma das mais importantes faculdades de direito do país, quase como uma provocação à constituição de 1988, tida como “garantista demais” pelo grupo político de Santos. Em frente ao prédio histórico, centenas de jovens clamavam por execuções sumárias, valas comuns para traficantes e que o Partido dos Trabalhadores (PT) fosse posto na ilegalidade.

Militantes do Missão repetem lema “prendeu, matou”, sobre execução de pessoas acusadas de crimes

O Partido Missão foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral em novembro de 2025, realizando o plano dos integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre) de montar a própria legenda, deixando de lançar candidaturas pulverizadas em partidos do centrão, como a do deputado federal por São Paulo Kim Kataguiri, eleito pelo Democratas, atual União Brasil e do ex-deputado estadual Arthur Do Val, também eleito pelo mesmo partido e cassado em 2022, após o vazamento de áudios sexistas sobre as vítimas da Guerra da Ucrânia.

Hoje, o rosto da Missão é Renan Santos, que pretende chegar ao Palácio do Planalto com uma plataforma voltada para uma “guerra declarada contra o crime organizado” tocada a partir de decretos de Garantia da Lei e da Ordem, a instauração de um Estado de Defesa e a aplicação do “direito penal do inimigo”, segundo seu plano de governo.

O direito penal do inimigo, teoria jurídica alemã formulada por Gunther Jakobs em 1985, estabelece a divisão da legislação penal em duas: uma que segue as regras normais para o cidadão comum, que comete um crime ou um delito, outra muito mais rígida para os inimigos do estado que “devem ser neutralizados”, como grupos terroristas, e no caso brasileiro, facções criminosas e milícias. Só há um problema com a teoria defendida pelo grupo: ele fere o artigo 5° da Constituição, a Cláusula Pétrea que afirma que:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”

A professora de Direito Penal da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Presidente da Comissão de Criminologia do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), Roberta Duboc Pedrinha, classifica a defesa do “direito penal do inimigo” através de um projeto de segurança pública como “absolutamente preocupante e fruto de um maniqueísmo grotesco”. O próprio Renan Santos admite que lida mais com a emoção do que com a razão ao defender suas ideias.

Segundo o candidato, em discurso no evento deste domingo: “Nós faremos políticas baseadas em dados, mas também faremos políticas baseadas em senso de justiça. Todos ficam felizes em ver bandido preso”. E a militância do partido segue a ideia, um dos cantos mais repetidos no Largo de São Francisco diz: “eu vou votar no 14 como se fosse a vingança do povo”.

Emoção é a palavra chave: muito do que foi dito no primeiro ato de campanha da Missão, não só por Renan Santos, indica que o eleitorado do partido busca soluções contundentes e fáceis, sem grandes discussões.

A professora Duboc afirma que o apoio deliberado à atos de violência por parte do estado é “uma adesão subjetiva à barbárie”. Segundo a criminalista, as falas populistas de Renan Santos não passam de uma “questão performática”. É um “simplismo com verniz técnico”.

Ato de lançamento da candidatura de Renan aconteceu na frente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP)

Mas isso não parece importar para os membros do partido. O candidato à vice-presidente na chapa de Renan, o tenente-coronel da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, Aroldo Medina, afirmou à Agência Pública que chancela o programa de segurança. Medina diz que Renan não está improvisando e que coordenará as principais operações contra o crime organizado em um possível governo, dando “um recado” para que as lideranças do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital: “arrumem as malas e vão embora”. Em seu discurso no palco do evento de lançamento da campanha, Medina repetiu a afirmação, completando que “não precisarão matar ninguém se os faccionados forem embora do país”.

A reportagem questionou a assessoria de Renan sobre as propostas irem contra a Constituição. O espaço segue aberto para a manifestação do candidato.

Com vice policial, Renan promete menos direitos para o “inimigo”, contrariando Constituição

Jovens e desiludidos aderem a discurso extremista

O público presente no primeiro dia de campanha da Missão diz muito sobre a candidatura. Boa parte dos que estavam acompanhando as falas de Renan Santos, Kim Kataguiri, Amanda Vettorazzo e companhia eram jovens, alguns em seu primeiro ciclo eleitoral. Outros, mais velhos, afirmaram ter se desiludido com o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL – RJ).

Hugo Brandão, estudante de 21 anos, afirma que a pauta da segurança é a mais importante nestas eleições: “O combate ao crime organizado é o que vai garantir a tranquilidade da população. Você sai de sua casa para trabalhar com medo de ser morto por um desses vagabundos que chamam de vítima da sociedade”.

O porteiro Rodinei de Castro, diz que se considerava um “bolsonarista”, mas que, depois do escândalo do financiamento do filme Dark Horse por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e das conversas vazadas entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro (PL – RJ), mudou de ideia “apareceu aquele dinheiro do Banco Master, eu não sou otário”. Além da corrupção, a segurança pública também é um dos motivos para a adesão à campanha de Renan Santos: “O Renan prometeu exterminar o crime organizado, isso é muito forte. Eu já fui roubado dez vezes”.

A pauta da violência contra as mulheres — presente no discurso dos demais candidatos, como Lula e Flávio —, também ressoa no eleitorado de Renan. Jéssyca Salustiano (Missão), candidata à deputada estadual por São Paulo, conta que mesmo após a instauração de medidas protetivas contra o ex-marido voltou a sofrer agressões e afirma que “não é uma tornozeleira rosa” que vai resolver a violência contra a mulher, “a política institucional não conseguiu me proteger”. Nas redes sociais, contudo, Jéssyca repete as propostas do “Livro Amarelo” do partido, vendido à R$ 100 no site, com ideias vagas sobre o que pretende fazer caso eleita, como “proteção real às mulheres e combate ao descumprimento de medidas protetivas”.

Edição: Bruno Fonseca | Fotógrafo: Gabriel Barros

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