O PASSADO NÃO JUSTIFICA O PRESENTE, MAS ETERNIZA PRECONCEITOS ENRAIZADOS.
por Cyro Saadeh*
Não me é devido o silêncio perante aberrações recorrentes. Não sou um Ser Supremo no Olimpo. Sou simplesmente um humano que, como todos, herdou o que restou do verbo inaugural na criação do Universo e da humanidade. Assim, o silêncio não me é uma opção. O presente texto é escrito em razão de uma carta divulgada à mídia e que teria sido assinada por um grupo de intelectuais que seriam solidários aos ditos "presos políticos iranianos", em uma data ingrata, pois naquele mesmo dia 19 de agosto, mas no distante ano de 1953, britânicos e estadunidenses financiaram e arquitetaram um golpe contra o líder legítimo iraniano, o então presidente Mohammad Mosaddegh, um nacionalista laico. O que sucedeu ao golpe foi um regime monárquico despótico, truculento, que perseguia os religiosos e era muito próximo do ocidente. Revoltado, o povo iraniano derrubou a Monarquia em 1979. De lá para cá o Irã foi vítima de pesadas sanções e tentativas orquestradas de golpes de Estado. Com tantos perigos, o regime foi se fechando e seu exército se preparando para um mal maior. Há presos políticos no Irã? Há, mas quase a totalidade foi financiada ou fortemente incentivada por agentes de outros países e uma boa parte poderia ser enquadrada como terrorista, pois atentou deliberadamente contra a vida de civis e de agentes públicos, na tática ocidental de provocar as chamadas revoluções coloridas. Mas, passada essa breve introdução, vamos ao texto proposto.
Nenhum religioso, comunista, socialista, indigenista, defensor dos direitos humanos ou intelectual está, por si só, isento de criticas. O que as pessoas defenderam pela vida toda não serve de imunidade contra desserviços que venham passar a prestar à humanidade.
Se a pessoa não é capaz de enxergar a realidade próxima ou distante, possivelmente não será capaz de vivenciar com autenticidade a teoria que escreve. As pessoas mudam e talvez a incapacidade de sentir tenha sido adquirida depois de fazer grandes realizações, por alguma questão não exposta a público. O que fez de bom foi feito e assim deve ser considerado, mas os erros graves do presente e do futuro não podem ser acobertados por um passado iluminado.
Enganos todos podem cometer, pois somos humanos, mas a ausência de sensibilidade para sentir o que toca o mundo é algo incompreensível para quem foi considerado tão importante para o avanço da humanidade em determinado período da história, ocidental.
A razão disso data de milênios. É um preconceito enraizado na alma dita ocidental.
O ocidente é repleto de incongruências. A Grécia, que sempre esteve no extremo leste da Europa, ao leste do hemisfério ocidental, bem ao lado dos turcos, dos árabes e russos, hoje é chamado de Ocidente, para se contrapor a um império que sempre trouxe uma visão diferenciada ao mundo e que por isso sempre foi discriminado. Esse império que libertou escravos, que trouxe o que é considerado o primeiro documento dispondo sobre direitos humanos, que criou o primeiro sistema de canais que captavam água de aquíferos e irrigavam áreas agricultáveis, que inventou um sistema potente de refrigeração sem usar energia elétrica, que utilizou o barro para conservar alimentos, que dividiu o país em regiões administrativas para facilitar a governança, que muito antes dos romanos construiu enormes estradas, que deu início ao sistema de correios, que padronizou a moeda e que muito contribuiu com a astronomia, a matemática, a arquitetura e a medicina, hoje é considerado o grande inimigo desse dito ocidente, um ocidente que deixou de lado os ideais iluministas e da fraternidade, igualdade e liberdade, para se limitar ao ideal da ostentação, do poder e da riqueza, do consumismo dogmatizado pelo capitalismo.
Mas que império é esse que há milênios incitou o ódio e o preconceito racial do dito ocidente? Veremos adiante.
Com o tempo, o ocidente deixou de basear-se na Espiritualidade, em seu sentido vasto, do qual se utilizava para alcançar grandes e imemoráveis conquistas filosóficas, e se limitou a uma busca frenética pela suposta razão da existência material enquadrada por uma lógica capitalista. Limitou-se e corrompeu-se, entregando-se à escuridão e ao vazio existencial. Desumanizou-se. Daí, colonialismo, escravidão, imperialismo em seu conceito moderno, genocídios, nazifascismo, crimes de guerra e tantas aberrações serem tão frequentes.
Com a maior potência histórica em crise existencial, moral, social e econômica, o capitalismo neoliberal também se conturbou, aumentando-se, com isso, a pressão sobre os países. Sanções, elevação de tarifas, bloqueios, golpes e guerras são reflexos dessa fase. O império decai lentamente. O neoliberalismo inicia o processo de desfazimento. O Sul Global, escravizado, colonizado e que sofreu os seguidos atos imperialistas modernos, se eleva. Índia, China, Indonésia, Coreia do Sul e tantos outros países asiáticos mostram sua alta capacidade produtiva e tecnológica e enorme potencial em uma economia diferenciada, mais voltada à sociedade que regem que simplesmente ao o que o ocidente denominou de mercado consumidor.
A economia, com os asiáticos, deixa de ser estritamente neoliberal e o Estado se fortalece para atender às demandas sociais. Há os ricos, mas a pobreza diminui. No ocidente, ao contrário, é crescente o número de pessoas em situação de rua, de dependentes de drogas, de desempregados, é grande a diminuição da classe média, e explode o radicalismo extremista, preconceituoso, desagregador e desafiador da própria humanidade, enquanto um reduzidíssimo número de pessoas se enriquece rapidamente, surgindo o primeiro trilionário da história humana.
O ocidente, cujo termo foi cunhado para se opor aos persas e tantos outros ditos orientais, se perdeu no caminho, Largou o iluminismo, o renascentismo e aderiu firmemente a uma forma perversa de capitalismo rentista e concentrador de rendas, que culminou nos piores atos da história da humanidade.
Daí não é dificil entender como muitos intelectuais do ocidente são incapazes de enxergar o outro, o oriental, o persa, e mesmo em meio a uma guerra absurda iniciada por Estados Unidos e Israel, que inicialmente, através da infiltração de agentes externos e provocadores, tentou causar manifestações e conturbações sociais que não foram exitosas e que depois descambou para o descarado bombardeamento de áreas civis, destruindo universidades, hospitais, estradas, pontes e matando todos os professores e todas as pequeninas meninas que estudavam em uma escola infantil, que executou os líderes daquele país, ainda são capazes de fazer julgamentos morais contra o povo invadido e agredido. É o mesmo ocidente que considera terrorista a pessoa que se manifesta a favor do povo palestino e contra o genocídio. E é o mesmo ocidente que tenta evitar críticas a Netanyahu e ao Estado de Israel ao confundir termos tão díspares como antissionista e antissemita para taxar de antissemita quem critica as atrocidades horrendas cometidas pelo regime extremista, colonialista e de apartheid de Israel.
O ocidente perdeu a coerência e a sensatez. Restou-lhe, porém, o preconceito decorrente da divisão milenar de ocidente e o outro, que se iniciou de forma pejorativa aos persas e que continua até hoje ao mesmo povo herdeiro das grandes conquistas daqueles, o iraniano.
* editor do Blog do Cyro, jornalista, advogado público, documentarista e pretenso escritor.
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