A COPA DAS BETS (o texto é do economista FLÁVIO ATALIBA)

imagem: Senado Federal

Transcrevo logo abaixo pequenos trechos de um texto importante publicado em um prestigiado site, o da FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. Se você quiser ler na íntegra, clique aqui.

O seu autor é um economista, Flávio Ataliba. Ele se formou na Universidade Federal do Ceará, tem doutorado também em economia pela EPGE/FGV. Foi pesquisador visitante na Universidade da Pensilvânia/EUA e com pós-doutorado em Economia pela Universidade de Harvard/EUA e Universidade Técnica de Lisboa/Portugal. É professor da UFC, pesquisador associado do FGV IBRE e coordenador do Centro de Estudos do Desenvolvimento do Nordeste.
 

A Copa das bets

Durante a transmissão de um dos jogos desta Copa, um comentarista elogia a jogada de um atacante e, na sequência natural da própria fala, anuncia a cotação para que esse mesmo atacante marque o próximo gol. Poucos dias depois, Kylian Mbappé solicita publicamente à federação francesa que revise o uso de sua imagem em uma campanha publicitária de apostas. A federação tinha um contrato legítimo para usar essa imagem. E a entidade que preside todo o torneio, a FIFA, mantém como patrocinadora oficial da própria Copa uma casa de apostas, em uma configuração que convive com as restrições que seu próprio código de ética estabelece para o envolvimento de jogadores e dirigentes com apostas ligadas às partidas.
(...)
... Entre janeiro e abril deste ano, as plataformas de apostas movimentaram R$ 12,2 bilhões no país, o dobro do registrado no mesmo período de 2025. Durante o torneio, levantamento da fintech Klavi, baseado em dados de Open Finance, estimou que aproximadamente 35% dos brasileiros realizaram ao menos uma aposta, com valor médio partindo de R$ 188 no início do torneio e chegando a picos acima de R$ 500 em dias de jogo da Seleção Brasileira, como o observado após a partida contra o Marrocos. 
(...)
Há uma razão comportamental para que essa sucessão de estímulos produza um volume tão elevado de apostas. Daniel Kahneman (2012) mostrou que decisões tomadas sob elevada carga emocional tendem a deslocar o raciocínio deliberativo para respostas rápidas e fortemente influenciadas pelo contexto. A Copa reúne exatamente essas condições haja vista que reune emoção intensa, incerteza e milhões de pessoas concentradas ao mesmo tempo diante dos mesmos eventos. 
Há também uma segunda consequência, menos visível. Cada aposta realizada não é apenas uma decisão do usuário, mas um novo dado para a plataforma. O horário da aposta, o valor arriscado e a reação às perdas passam a alimentar algoritmos capazes de compreender cada vez melhor o comportamento de cada apostador, aperfeiçoando seu desenho de persuasão a cada nova rodada. 
(...)
Pela primeira vez, a publicidade das bets deixou de permanecer restrita aos intervalos comerciais ou aos banners ao redor do campo. Ela passou a fazer parte da própria narrativa do jogo, em diferentes transmissões do torneio. 
(...)
Essa prática, comum a diferentes canais que transmitiram o torneio, levou o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) a abrir, em 25 de junho, representações contra três casas de apostas (KTO, Betnacional e Bet365), com uma liminar concedida no dia seguinte recomendando a suspensão dos anúncios em questão. Paralelamente, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça, abriu investigação preliminar sobre o tema. 
(...)
O narrador e o comentarista, de modo geral, não são percebidos pelo público como vendedores, mas como analistas do jogo, e é essa credibilidade construída ao longo de anos que se transfere, quase sem atrito, para a cotação anunciada segundos depois, em qualquer transmissão que adote esse formato. 

Comentários