O primeiro motivo, e o principal, é de que a nossa elite se vê integrante de um modelo próprio do país líder do capitalismo, os Estados Unidos, esquecendo-se das peculiaridades próprias do nosso país. Dessa forma, é uma elite nada apegada à brasilidade (costumes e cultura brasileiras) ou ao nacionalismo, mas ao "modus vivendi" dos anos 70 dos Estados Unidos.
Observe-se que, entre o fim da Segunda Guerra Mundial e os anos 70 do século passado os Estados Unidos viveram sua era gloriosa, com menos guerras, embora o intervencionismo em outros países fosse uma constante. Havia ainda um Estado de Bem Estar Social. Posteriormente, com a guerra do Vietnã e os altos custos do fracasso da invasão, o fim da paridade com o ouro e a adoção do neoliberalismo, a preocupação social se esvaiu, adveio a concentração de riqueza nas mãos de poucos, quando surgiram, então, os primeiros bilionários da história; os Estados Unidos já não eram os mesmos.
A elite brasileira, assim como da maior parte da América Latina, é vinculada umbilicalmente aos Estados Unidos que já não existe mais e que ficou para o passado, mas creem que o modelo do Tio Sam é o ideal para o Brasil.
Enquanto isso, desde a nossa independência, os Estados Unidos nos viram como potencial rival, seja pela grandiosidade de nosso território, seja pelo número de nossa população, seja pela nossa riqueza natural, e jamais nos deixaram crescer economicamente com tranquilidade, sempre intervindo para que golpes derrubassem presidentes comprometidos com o nacionalismo (tentaram com Vargas e Juscelino e foram exitosos contra João Goulart - com apoio de militares - e Dilma Rousseff - com apoio expresso de membro do Judiciário Federal e do Ministério Público Federal e também de parlamentares).
Nesse contexto, a direita brasileira e até parte da própria esquerda defende o neoliberalismo como modelo a ser radicalizado, algo já fracassado em todo o globo, privatizando empresas públicas, diminuindo direitos trabalhistas, previdenciários e sociais e empobrecendo o povo brasileiro e desindustrializando o país.
O Brasil já adota o neoliberalismo desde o governo Collor (eleito pelo PRN). Fernando Henrique (PSDB), no entanto, embora negue ser neoliberal, radicalizou a adoção desse sistema, privatizando empresas públicas e arruinando grande parte de nossa malha ferroviária, tão importante para o transporte de pessoas e escoamento de grãos e não só de minérios. O resultado foi uma grande desindustrialização, aumento do desemprego e o empobrecimento do brasileiro. A situação dramática levou Lula a ser eleito, o qual não rompeu abertamente com o neoliberalismo, mas não seguiu à risca a cartilha radical de FHC, retomada por Termer e ampliada por Bolsonaro, o qual, inclusive, trabalhou contra a cultura nacional, um dos elementos integrantes da formação do Estado Brasileiro.
O neoliberalismo, como se sabe, quer o Estado mínimo, inexistente para o povo, mas presente para socorrer a iniciativa privada e atuar como força repressiva contra a população. Daí assistirmos cada vez mais as polícias serem usadas como meio repressivo às manifestações populares.
Lula e principalmente a presidente Dilma, intensamente mais nacionalista, inseriram o Brasil nos BRICS, promoveram que nossas grandes empresas se tornassem multinacionais, em especial a Petrobrás, Embraer e empresas de alimentos e de engenharia (esta última praticamente destruída pela Lava Jato) e investiram em nossas Forças Armadas e na indústria de defesa, em especial na conclusão do desenvolvimento de nosso submarino com propulsão nuclear.
E hoje se vê a China e a Rússia crescerem de importância no cenário internacional. A primeira como uma gigante na economia e a segunda como uma nação poderosamente armada, mas ambas importantíssimas geopoliticamente, e não só regionalmente. São países de grande importância na Ásia, África e na América Latina.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos tentam conter a Rússia através da guerra da Ucrânia e a China pela guerra contra o Irã, parceiro estratégico de Pequim. Os Estados Unidos escorregam na primeira e fracassam na Segunda, numa vergonhosa derrota estratégica para um país gravemente sancionado há 47 anos. Desde a guerra da Coreia os Estados Unidos não obtêm uma vitória militar contra uma Nação de médio porte, mas nunca foram tão humilhados como na guerra contra o Irã. Apenas sagraram-se vitoriosos na invasão da minúscula ilha de Granada. Foram perdedores no Vietnã (que se integrou e se tornou comunista), no Iraque (derrota estratégica) e até na Líbia (derrota estratégica), cedendo espaço na África para potências então regionais, como Rússia e Turquia, e a China, esta no aspecto econômico e de parcerias estratégicas com as Nações africanas.
Com a decadência econômica e geopolítica, e até militar, dos Estados Unidos, sua influência diminui na Ásia e na África, regiões de grande influência russa e chinesa.
Assim, os Estados Unidos voltam-se contra a América Latina. Daí o sequestro de Maduro (que muitos dizem ter sido entrega encomendada por traidores venezuelanos) e as ameaças constantes contra o México, a Colômbia e Cuba, este último ameaçado de invasão, após sofrer praticamente um bloqueio naval.
Não é por outro motivo que o governo dos Estados Unidos estão apoiando a extrema direita latino-americana, totalmente neoliberal e entreguista e, segundo o divulgado pela mídia um mês atrás, através do "Honduras Gate" adota-se um plano de interferência dos Estados Unidos, com apoio de Israel e ajuda financeira da Argentina, em países como México e Colômbia. Não se fala em Brasil, mas devido ao fato de nosso país ser o maior - territorialmente - da América Latina, com a segunda maior população de todo o continente americano (só perdendo para os Estados Unidos), sendo o mais industrializado da América Latina, com a maior economia da América Latina, com a maior reserva de terras raras da região, com a maior reserva de água doce do planeta (a Rússia diz que é a maior, mas conta com o degelo do aquecimento global), com riquezas diversas (minérios, petróleo, grande produção agrícola e pecuária) e a segunda maior democracia do mundo ocidental, parece ser evidente que se torna alvo prioritário do governo Trump.
Nesse contexto, cabe ao Brasil decidir. Fica ao lado do decadente e beligerante Estados Unidos ou se une à China e Rússia no BRICS e se projeta para ser potência mundialmente relevante?
Se ficar ao lado dos Estados Unidos, o Brasil certamente verá aumentar o crime organizado e a pobreza e não sairemos do marasmo que nos domina desde a independência. Por outro lado, caso se alie à China e Rússia, aumentará o seu comércio exterior e sua relevância internacional, mas estará sujeito a bloqueio naval (que afetará nossas exportações e importações) e um possível severo ataque militar dos Estados Unidos, que não aceitarão perder uma área da região que julgam ser de sua influência exclusiva.
Como nossas Forças Armadas não têm condições de lutar de igual para igual com os Estados Unidos nem de promover uma guerra assimétrica, ao estilo daquelas praticadas na Ucrânia e no Irã, aliar-se à China e Rússia, se o caso, exigirá que seus parceiros montem bases militares (em áreas estratégicas) em nosso território. Como isso demandaria tempo, muito certamente os Estados Unidos agiriam antes que pudessemos inaugurar tais áreas militares, inclusive fomentando guerras entre as nações da região.
O Brasil está em um grande impasse. Se conformar com a eternização do passado ou pensar em um futuro, sabedor que não tem condições de evitar derramamento de sangue para garantir sua soberania.
Pensemos. Saída há, mas isso exige estudos, planejamento e articulação sigilosa. Nessa realidade, a divisão do Brasil entre esquerda e direita enfraquece o governo e o Brasil como um todo. Mas saber das possibilidades já nos faz pensar no futuro e acreditar em nosso potencial, fator propenso para a união de nosso povo.
Comentários