A ética é importante desde os velhos gregos. Mas a ética não pode ficar restrita apenas aos estudos filosóficos. Ela faz e deveria fazer parte, sempre, do nosso dia a dia, de todos nós.
A ética diz respeito à conduta e por isso órgãos de classe têm órgãos e tribunais de ética só para analisar e julgar casos que envolvam comportamentos considerados irregulares dos profissionais nelas inscritos.
Na era da crise aguda do capitalismo, mais especificamente do neoliberalismo, onde ele se mescla com o poder imperial de potência hegemônica decadente, as crises sociais e as guerras tendem a aumentar, mas não só, a crise ética também.
E a ética, como é possível deduzir, está em tudo, na condução política, na condução econômica, na condução das guerras...
Não é preciso ser especialista para ver o fim da ética nas guerras, com assassinato de pessoas em filas de comida, na sofrida Gaza, e de bombardeios a escolas de infantes, matando pequeninas meninas, no Irã.
Aqueles que vendem, compram e permitem a venda de bens sem o pagamento de tributos ou de bens ilegais praticam, cada um deles, não só ilegalidade, mas falta de ética em seus comportamentos. E assim ocorre na venda e compra de celulares furtados e roubados...
O fim da ética na economia é permitir, como se direito fosse, alguém tornar-se sem teto, sujeitando-se a todos os tipos de violência, bem como propiciar ao trabalhador de baixa renda o que se denomina erroneamente de empreendedorismo, onde ele nada empreende, mas apenas vende sua mão de obra pilotando perigosamente motos em alta velocidade que entregam bebidas, comidas e compras em geral, sem carteira assinada, sem garantia de previdência social e sem qualquer garantia à sua própria integridade física. As plataformas que exploram esses brasileiros na máxima da mais valia são estrangeiras e a conta da questão social em caso de acidentes e mortes fica exclusivamente a cargo do Estado brasileiro. A falta de ética está em cada traço dessa relação.
Obviamente as situações acima não são éticas, assim como não é ético dizer que uma pessoa em situação de rua, sem renda para sequer uma refeição, possa se tornar empreendedor, como fazem alguns administradores públicos mais preocupados na fácil demagogia do que em qualquer pretensão sincera de resolução de problemas.
Um dependente de drogas largado à própria sorte nas ruas, com evidente risco de morte, não pode autorizar o silêncio e a inação da família, da sociedade e do Estado, sob pena de caracterizar omissão de socorro. Mas é o que vemos nas cracolândias das pequenas e médias cidades de todo o Brasil.
Vemos no dia a dia políticos difundirem as mais variadas mentiras, seja nas tribunas, seja nas mídias sociais. A eles faltaria o necessário decoro, que na linguagem vulgar significaria comportamento ético e moral. Mentira seria, portanto, motivo para cassação e não para lacração. Mas a ética, mais uma vez, não é considerada.
Nesse panorama, muitos funcionários públicos de alto escalão se sentem não propriamente servidores públicos, mas pessoas especiais, com direitos especiais e, de certa forma, acima da população, como verdadeiros aristocratas dos tempos modernos. Vemos isso na burla ao teto do funcionalismo, agora já apreciado pelo Supremo Tribunal Federal, bem como na hodienda aceitação de convites, benesses e presentes de pessoas físicas e jurídicas que têm, tiveram ou podem vir a ter alguma relação com o órgão que representam ou onde trabalham.
Ética é algo sério, sinal básico e vital de respeito aos demais brasileiros, mas está faltando em nossa sociedade, seja aos empresários, seja à população em geral, seja aos políticos e a uma classe privilegiada do funcionalismo público.
Não basta sermos corretos, mas devemos demonstrar que o somos.
Sem ética, dificilmente desenvolveremos a consciência da identidade nacional e do significado forte da brasilidade. E sem isso não teremos o impulso necessário para o desenvolvimento e o crescimento em todas as esferas da vida.
Defender a ética não é ser retrógado ou conservador, mas visar à preservação do fundamento primordial de uma sociedade sã. O que nos uniu em sociedades há milhares de anos foi a confiança recíproca, o que só a prática da ética permite disseminar.
Mas qual a relação da falta de ética com o neoliberalismo em crise aguda?
O neoliberalismo prioriza o indivíduo em detrimento da sociedade, valoriza a concentração de riquezas e de poder nas mãos de grandes grupos econômicos, ao mesmo tempo em que torna o Estado fraco e a democracia apenas uma representação teatral. O neoliberalismo caminha para o lucro máximo, o Estado mínimo, com regime controlado por setores poderosos da sociedade. O povo vive ilusões não apenas nas fake news soltas diuturnamente, mas na falsa impressão de que pode mudar algo no sistema vigente, controlado de perto pelos grandes grupos econômicos.
Os grandes grupos financiam candidatos, presenteiam altos servidores públicos e manipulam, através do seu poder econômico e relações de interesse, o que é veiculado pela grande mídia.
Os poderes se entrelaçam cada vez mais abertamente com os interesses e os comandos dos grandes grupos econômicos nacionais e estrangeiros. Muitos administradores públicos fazem o que podem para agradar esses grandes grupos e vendem esses atos nada éticos como se representassem uma certa modernidade. Enquanto isso, o interesse público e a sociedade são relegados a segundo plano.
O comportamento aético ou antiético que vemos tornou-se regra.
Mas e o Estado e o regime democrático? Somos todos excluídos, da pessoa em situação de rua, passando pelos funcionários públicos que não pertençam à elite e demais trabalhadores até os pequenos empresários. A democracia tornou-se figurativa, e não é apenas no Brasil. Vemos isso em alguns países europeus e nos Estados Unidos.
O neoliberalismo está pondo fim a valores fundamentais, como o da ética e da solidariedade. Além disso, está enterrando a hegemonia ocidental que perdura há quase 550 anos.
O neoliberalismo nos pregou um engodo fatal.
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